“Talento incomoda”, diz Neville D’Almeida ao lançar o ensaio “Bye Bye Amazônia”

(Fotos: Divulgação)

Neville D’Almeida anda zangado. A violência que hoje se pratica contra os biomas do Brasil, apesar do investimento da atual presidência (com Luiz Inácio Lula da Silva) nas questões ecológicas, tem tirado o sossego do octogenário cineasta. A forma de ele reagir é um filme. Responsável por um dos invejados sucessos de bilheteria da América Latina, “A Dama do Lotação” (visto por 6.509.134 espectadores em 1978), Neville lança nesta segunda-feira no Festival do Rio uma longa-metragem em tom de ensaio chamado “Bye Bye Amazônia“. A sessão será no Estação NET Rio 4, às 21h (2h em Lisboa). Trata-se de ua autópsia em corpo vivo de uma realidade em agonia, a realidade da selva. A narrtiva mistura ficção, documentário, videoarte e protesto.

Apoiado num jogo de encenação devastador de Thiago Justino, o ator buscou a ancestralidade e a resiliência dos povos originários para propor um estudo sobre a bruta gestão de latifundiários, de mineradores e dos produtores de borracha contra as populações indígena, sobretudo na Era Bolsonaro.

Fiz um filme indignado com a passividade deste mundo, com a preguiça dos fariseus da cultura, que só agora flirtam com os indígenas, num processo paternalista que olha para aquela cultura milenar gigante de cima pra baixo, com a burrice inerente à classe média“, diz Neville ao C7nema. “A força dos povos da selva dá-se sobretudo por signos femininos, pela presença das mulheres no comando, na liderança, na coragem”.

Sem lançar filmes desde “A Frente Fria Que A Chuva Traz” (2015), ele agrega cânticos e poemas da floresta, na voz de uma indígena, numa experiência que celebra ainda a luta do povo negro contra o racismo.
Estamos dando adeus à vida, ao pluralismo deste mundo. Esse ‘Bye Bye’ a que me refiro no título se refere às populações que fazem esse país nascer dia após dia, mas são vítimas da bestialidade, sobretudo as mulheres negras e indígenas. O meu papel como realizador é viabilizar meios para essas vozes oprimidas falarem”, diz Neville.

Um dos eixos centrais de “Bye Bye Amazônia” é o ator idígena Maksuara, o protagonista, que se expressa por meio de uma performance cheia de fúria. Ele chega a ser enterrado vivo.

O mundo encaretou e entrou numa fase de se pactuar com as ordens do capitalismo. O meu cinema não faz pactos. É por isso que estou sempre sendo a patrulhar no meu dia a dia“, diz o cineasta.

Em 1980, ele emplacou um segundo blockbuster, “Os 7 Gatinhos”, que vendeu 1.938.136 bilhetes. Fez ainda um remake do filme de culto “Matou a Família e Foi Ao Cinema”, numa releitura que lhe rendeu dois troféus de Melhor Realização, o Kikito de Gramado e o Candango de Brasília, em festivais nacionais, em 1991. Neville bateu em muitas portas atrás de apoios para rodar “Bye Bye Amazônia”. Foi ignorado por muitos, em função do estigma de maldito que carrega desde os tempos da ditadura, quando exibiu “Jardins de Guerra” na Quinzena dos Realizadores de Cannes, em 1969. Mas existe uma juventude que o apoia. São jovens estudantes que redescobriram os seus filmes.

Não vivo no passado. O talento incomoda os burros, os sábios e os hipócritas. Eu incomodo por que brilho, por não ser careta”, diz Neville. “É perseguição por todo lado contra mim, mas eu não desisto”.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/q869

Últimas