Curiosa para entender como é a circulação de pessoas de Copacabana ao Centro, no Rio de Janeiro, o que envolve uma geografia de pontos turísticos do território carioca, Delphine Deloget desbrava a cidade mais cosmopolita do sudeste do Brasil com toda a sua inquietação de documentarista, mas com a poesia de quem acaba de estrear na ficção. Depois de anos de devoção às narrativas documentais, ela ousa um tráfego pelo melodrama com “Rien à Perdre“, que está em exibição na grade do Festival do Rio, com o título “Tudo ou Nada“.
Elogiada na mostra Un Certain Regard de Cannes, a trama elege como protagonista Sylvie (Virginie Efira), que vive em Brest, na França, com os seus dois filhos, Sofiane e Jean-Jacques. Juntos, eles formam uma família unida e feliz. Uma noite, o caçula Sofiane se machuca sozinho no apartamento, enquanto a mãe está no trabalho. O incidente é relatado e o menino é colocado em um orfanato. Munida de um advogado, o apoio dos irmãos e o amor de seus filhos, Sylvie confia que conseguirá vencer o sistema burocrático e legal. Numa conversa na Glória, bairro sede do evento, Delphine fala ao C7nema sobre seu flerte com o melodrama.
Qual é o desafio de se falar das angústias de uma mulher que é mãe, mas não de se resume a esse papel, numa sociedade tão afeita a rótulos?
Quis estrear-me na ficção com um tema forte pois passei muito tempo no registro documental, um espaço no qual a vida pode nos oferecer uma série de situações mais duras do que a fábula. Amo o melodrama, e me acerquei dele aqui com a certeza de que corria o risco de cair no patético. Arrisquei apoiada na proximidade que a não ficção me trouxe da liberdade.
Que dimensão existencial existe por trás da história de maternidade que retrata?
Tentei propor um retrato de pessoas que, em seus 40 e poucos anos, têm dilemas radicais relativos à família, aos amigos. A longa-metragem mostra a uma sociedade dura, que gera fragilidade ao mostrar o quão escassa pode ser a solidariedade.
Existe espaço para surpresa num set de ficção, da forma como se surpreende na feitura de um documentário?
Existe, sim, essa possibilidade quando se tem confiança plena no elenco. A Virginie é uma estrela que conhece muito bem o seu ofício, o que me deixa confiar nos seus gestos, pois o improviso não é um método que funciona bem para a forma como eu me aproximo da criação. Neste filme, tive pouco tempo para criar.
De que forma a escolha de Guillaume Schiffman, um diretor de fotografia acostumado a projetos pop, nomeado ao Oscar por “O Artista“, pode ser funcional para um set de tempo restrito?
Ele era fundamental para que eu não acentuasse o miserabilismo ao investir num trama social. Era importante um olhar mais pragmático como o dele, que toma decisões com justeza.

