Conhecer o Brasil da Era Lula após a conservadora gestão Jair Bolsonaro (2018-2022) desperta na realizadora francesa Catherine Corsini uma curiosidade acerca das alternativas que o novo governo oferece às mulheres num país de traços machistas. Foi esse o pleito que a cineasta trouxe para o Festival do Rio, onde exibe “De Volta À Córsega“, tradução em português para “Le Retour“. Houve uma sessão neste sábado, às 21h (horário brasileiro), no Reserva Cultural; no domingo, às 21h, no Kinoplex São Luiz, onde volta ser projetado no dia 10, às 13h30; e no dia 14, às 20h45, no Estação NET Gávea.
Aos 67 anos de vida e 41 de carreira, Corsini lançou “Le Retour” na luta pela Palma de Ouro de Cannes, em maio. Ela ganhou a Queer Palm lá em 2021, com “A Fratura”. A láurea coroava um argumento sobre duas namoradas num hospital público, numa noite de tumulto em terras parisienses, numa manifestação da classe operária chamada de Coletes Amarelos.
A sua nova trama é ambientada numa idílica Córsega, perfumada com o aroma do melodrama. A cineasta narra o difícil regresso de Khédidja (Aïssatou Diallo Sagna), com suas duas filhas, à terra de onde, um dia, teve de fugir. Corsini passou por mil percalços pessoais e profissionais no novo projeto. Na entrevista a seguir, ela explica que retrato de mundo buscou pintar.
Qual é o diálogo que seu filme trava com a tradição do melodrama?
O género é marcado por um olhar sobre as incompreensões do dia a dia. A maneira como as pessoas compreendem as situações variam de olhar para olhar, mas creio que existe uma analogia histórica entre o código melodramático e a mirada feminina, em especial quando o foco é uma figura feminina que teve pouco acesso a um padrão formal de linguagem, na sua formação. Eu falo, por meio dessa mulher que é Khédidja, da minha mãe, da minha irmã e de mim.
De que maneira o filme assume a Córsega como personagem?
Existe algo de secreto e de introspeto por lá. Orientei a diretora de fotografia (Jeanne Lapoirie) para filmar aquela paisagem não como um cartão-postal, mas como um lugar cheio de mistérios.
Que estrutura o cinema francês oferece hoje às diferentes gerações de mulheres que estão se destacando como cineastas no país?
Tive a chance de criar uma obra em que pude sempre dar voz e escuta às mulheres para que expressassem a condição feminina. Opero com histórias sobre a intimidade, com mulheres fortes em cena. Vejo realizadoras potentes como Justine Triet em cena, produzindo e enfrentando pressões. Nós estamos sempre em luta. A minha questão é saber como os temas que enfrentamos num país como a França se comportam numa sociedade sexista como a vossa.
Mas há umapoio do audiovisual francês?
Temos pela frente a hegemonia americana, com máquinas de guerra como “Barbie“. Além disso, existe o boom dos streamings e o impacto negativo da pandemia sobre a frequência do público nas salas. Temos filmes modestos para entrar em campo contra essa concorrência, mas temos a chance de refletir sobre o mundo de uma forma diferente. O olhar que nós, mulheres, podemos oferecer pode ser uma revolução.

