‘Tótem’ leva o México aos Horizontes de Donostia

(Fotos: Divulgação)

Uma das joias do Festival de Berlim, o mexicano “Tótem” dispara entre os filmes mais procurados dos Horizontes Latinos de Donostia, no seu fim de semana de arranque. Estrategicamente posicionado a menos de um mês da temporada de grandes premiações internacionais de fim de ano, que levam ao Oscar, o Festival de San Sebastián consegue absorver o melhor das outras mostras competitivas, ao mesmo tempo em que estreia longas-metragens em fase de première global. Entre as grandes maratonas da Europa, é das poucas a abrir essa exceção de reproduzir vencedores de Palmas e Ursos de Ouro. Lá pelos idos das décadas de 1950 e 60, era comum um filme ser exibido em concurso em Cannes e na Berlinale, mas, hoje, não. Um dos poucos festivais a quem a Croisette abre exceções é Sundance, nos EUA, requentando sempre alguma coisa de lá, sobretudo de tiver estrelas de Hollywood no elenco. Mas o drama de tons existencialistas de Lila Avilés conseguiu ter vaga em solo cannoise, na seção Cinephiles. Veio também para o evento do norte da Espanha, muito inclusivo em especial quando se trata do México.

Sob a direção de Lila, “Tótem” foi capaz de cruzar a linha imaginária de cordialidade que separa os três festivais: o germânico, o francês e, agora, San Sebastián, brilhando em todos. Numa mistura de dor e encantamento, o filme fincou a bandeira da América hispânica na luta pelo Urso de Ouro. Em Donostia, “delicadeza” é a palavra mais utilizada na fortuna crítica construída pela nova obra da realizadora de “A Camareira” (2018).

Trata-se de um estudo sobre a vida em família a partir dos ritos de amadurecimento da pequena Sol (Naíma Sentíes). Na trama, a menina passa o dia na casa do avô, em meio à preparação de uma festa para o pai. Mas algo sai errado ao longo do dia, revelando segredos daquele clã, fazendo Sol crescer… e brilhar. Em Berlim, o júri oficial ignorou a produção, mas o Júri Ecuménico deu a Lila sua láurea anual.

Não me pauto por convenções morais. Talvez as pessoas se incomodem com a carga de tristeza que eu mostro em cena, mas é que eu tento retratar o que há de mais animalesco na condição humana, misturando nosso Yin e Yang em escolhas das quais nem sempre nos orgulhamos”, disse Lila ao C7nema. “O trabalho mais custoso nesse processo de repensar o drama foi encontrar uma menina com a maturidade e sentido crítico, com senso de escuta para as nossas trocas. Cheguei a Naíma e encontrei uma força”.

Afetada mais pela prosa literária, na sua relação com a leitura de romances e contos, do que por referências cinéfilas, na sua forma de pensar e de construir drama turgia, Lila idealizou “Tótem” como um presente para a sua própria filha. Avesso ao uso contínuo de música no set de filmagens e nas telas, a realizadora atribui parte da força sensorial do seu trabalho de mapear uma geografia onde a natureza é soberana.

Respeito muito a paisagem que a câmara me revela”, disse Lila. “O maior interesse neste mundo está no processo de amadurecimento de uma jovem mulher“.

San Sebastián segue até o dia 30 de setembro.

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