Terceira geração de uma família ligada ao cinema, onde se inclui o avô (Eugenio Bava, operador de câmara e diretor de fotografia) e o pai (Mario Bava, realizador e argumentista), Lamberto Bava começou cedo a sua jornada no cinema, não apenas assistindo na realização a figura paterna, mas colaborando com inúmeros cineastas como Ruggero Deodato (Holocausto Canibal) e Dario Argento (Tenebre).
Realizador de filmes como “Schock”, “Dèmoni” (Os Demónios), “Macabro” e “Le foto di Gioia” (Pesadelo Interminável), Bava tornou-se numa figura incontornável do horror italiano, embora a partir da década de 1990 a televisão tenha sido o seu meio preferido para trabalhar.
Foi no Festival de Turim, onde atuou como presidente do júri de uma nova secção dedicada ao cinema de horror, que nos sentámos à mesa com ele, falando um pouco do seu percurso na Sétima Arte e de como o horror e o cinema têm mudado nos últimos anos.
Antes de mais, está aqui em Turim como presidente do júri de uma nova secção. Como chegou até aqui?
Estou como presidente no júri de uma secção que se chama Crazies, o que creio que fala por si (risos). Dizendo a verdade, é a primeira vez que venho ao Festival de Turim, mas conheço o Steve Della Casa [diretor artístico do festival] há anos e ele convidou-me para estar aqui. Sou um amante do cinema, mas não tanto de estar num júri (risos). Mas cá estou. Os filmes contam uma história que pode me agradar a mim, mas desagradar-te a ti. Ou vice-versa. Depende sempre do gosto pessoal. Fazer filmes é tão difícil, não apenas em Itália, mas em todo o mundo. Financiar e até conseguir os meios técnicos é tão difícil a nível mundial que só posso sentir um enorme respeito por quem os faz.

Com a abertura desta nova secção por parte do festival, notamos uma tendência dos festivais de cinema atuais em valorizarem mais o cinema de género que no passado? O que crê que levou a essa mudança?
Os filmes não mudaram, a crítica de cinema é que começou a respeitar mais o cinema de horror e a dar-lhe uma nova importância. Sou um autor do género fantástico, que inclui o horror, o que chamamos de thriller e até os contos de fadas. Sim, porque, quando se conta a uma criança uma fábula, existe sempre um elemento assustador.
É certo que houve uma mudança de pensamento dos festivais de cinema, mas não de todos. Por exemplo, Cannes sempre esteve um pouco mais aberto a este género de filmes. Já em Itália somos um pouco… bem, não vou usar a palavra retrógrado, pois não é um elogio. Agora estão um pouco mais abertos a quebrar esse tabu, mas fui sempre um realizador de cinema fantástico mais conhecido fora do meu país que nele. Sempre fui mais conhecido nos EUA ou na Coreia do Sul que aqui, onde existem ainda limitações.
No caso do Festival de Turim, conheço o Steve há anos e sei que é um amante e um grande conhecedor deste tipo de filmes.
Em certames como Locarno, desde que entrou o Giona A. Nazzaro, a abertura ao género foi notória. Por isso, os festivais estão a mudar com a chegada de uma nova geração de diretores artísticos…
Sim, já lá estive duas vezes. Mas, por exemplo, um dos festivais que mais gosto é Sitges, em Barcelona, dedicado ao cinema fantástico. O que me agrada neste festival é que as salas estão sempre cheias. Claro que são pessoas interessadas no género e a audiência é composta mais por jovens que pessoas mais velhas, mas o importante é ver aquele poder de atração do cinema.
O cinema tem mudado bastante na última década. Como vê essas mudanças?
Creio que o último pontapé no cinema foi dado pela pandemia. Eu, por exemplo, se não fosse este festival… Faz quatro anos que não entro num cinema, por causa do Covid, que na minha idade é um problema.
Mas as mudanças no consumo de cinema começaram a mudar há mais que dez anos. Sou um ancião nisto e atravessei todas as etapas. Uma das coisas que acompanhei é que o espaço e duração das exibições cinematográficas tem vindo a ser constantemente reduzido. Claro que as coisas mudaram desde que os Lumière surgiram e as pessoas ficaram aterrorizadas com o comboio a chegar à estação, mas… Há quatro ou cinco dias fui ao bairro onde nasci e cresci. Não ia lá há 20 anos e fiquei surpreso ao ver que todas as salas de cinema a que ia com os meus pais já não existem. Ou fecharam completamente, ou foram substituídas por lojas.
Fazendo um paralelismo, quando o império estava sob cerco dos muçulmanos, discutiam muito o sexo dos anjos em vez de estarem verdadeiramente assustados com o que estava a acontecer à sua volta. Sempre tive essa intuição em relação ao cinema e há bastante tempo que trabalho para a TV. O horror era um tabu na TV quando eu fiz uma minissérie chamada “Fantaghirò”(1991), com a qual tive bastante sucesso.
Fiz esta série – que tocava no horror, thriller e contos de fadas – não apenas porque queria que a audiência estivesse mais próxima do género, mas porque em muitos casos os orçamentos para as séries eram muito maiores que para os filmes. Sabe, recebi propostas muito ridículas para fazer certos projetos, por isso recusei-os. Agora, com o digital, fazem-se coisas com menos dinheiro, mas se quiseres fazer um filme com boa iluminação, isso vai custar-te mais.
Por essa razão, nos últimos dez anos, tenho me dedicado à escrita de livros, novelas e biografias, não apenas sobre mim, mas memórias da minha família, que tem uma longa tradição no cinema, desde o meu avô ao meu pai.
Falou nas dificuldades de fazer cinema hoje em dia, mas indo por outro caminho: alguns cineastas dizem que é mais difícil hoje escrever ou filmar pois têm de ter cuidado em não ofender alguém. Por outro lado, tópicos como o “male gaze” também vieram à baila. No giallo e horror sempre tivemos belas mulheres desnudadas, muitas vezes violentadas e vítimas de crimes bárbaros. Nesse sentido, é também mais difícil fazer filmes hoje, por causa destas pressões externas?
Creio que depende sempre do autor. Mas vou dar um exemplo. Cheguei agora de Milão, onde dei algumas entrevistas sobre dois documentários sobre o cinema italiano de horror. Perguntaram-me como o cinema de horror italiano nasceu e sobre o “Demónios”, que se tornou uma saga. Fizeram-me muitas questões, mas temos que olhar para cada autor individualmente e entender o período em que esses filmes foram feitos e qual a inspiração. O cinema fantástico italiano dos anos 60, 70 e 80 resultou muito da dureza da nossa vida nesses tempos, da situação política insegura, das revoltas estudantis, do terrorismo (nos anos 70). Tudo isto jogou um papel importante e influenciou muito o que filmámos e o género. Porque não fazemos mais estes filmes em Itália? Parcialmente pela ausência de financiamento, mas também pela falta de boas ideias.
Mas seria possível, hoje em dia, fazer um filme como o “Holocausto Canibal” do Ruggiero Deodato?
Deviam fazer mais hoje em dia (risos). Estive na equipa desse projeto e sou um grande amigo do Ruggiero, com o qual colaborei igualmente no seu primeiro filme. Na verdade, nesse tempo, era preciso ter uma percentagem de pessoas na equipa técnica para que o filme fosse considerado italiano. Por isso, muita gente – incluindo eu – “participou” nele. Uma coisa que me lembro bem foi que, na primeira exibição do “Holocausto Canibal”, para os amigos, o Ruggiero perguntou-me o que achava do filme. Eu disse-lhe esta frase: “arranja um bom advogado”. E realmente ele precisou. (risos)
Hoje não seria possível fazer este filme, mesmo que muitas coisas nele sejam falsas [artifícios cinematográficos). Hoje em dia não se pode maltratar animais. E eu próprio sofro imenso quando vejo animais a sofrerem. Na verdade, sou praticamente vegetariano. Há muita gente que no dia a dia corta a cabeça de uma galinha, ou esventra um porco. Questiono sempre o que acontece quando vão para casa? Fazem o mesmo à esposa, com a mesma faca? Talvez esta fosse uma boa ideia para um filme…
Normalmente, quando questiono realizadores sobre os filmes que fizeram e quais deles preferem, muitos respondem que esses filmes são como filhos e não mostram preferência. Também pensa assim ou tem as suas preferências?
No epitáfio da minha tumba estarão o “Demónios”, “Fantaghirò” e o “Ghost Son”.
No cinema de horror tem sido particularmente tradicional uma onda de remakes infindável. Veja-se o “Halloween” por exemplo. O que pensa destes remakes?
Não gosto nada de remakes, sequelas, requels, todas estas coisas. Por exemplo, há um filme maravilhoso sueco, o “Deixa-me entrar”. É um filme maravilhoso e uns anos depois fizeram um remake americano. Era horrendo (risos). Só uma vez fiz isso, um remake de algo que o meu pai tinha feito no passado (Black Sunday, 1960 – La maschera del demonio, 1990), mas mudei a história. Inicialmente, a ideia era ser uma série de 6 episódios, mas por questões de produção só um foi feito. Sinceramente, acho que o meu pai não ficaria contente em ver esse filme de todo.
Voltando um pouco atrás nas suas questões, tenho de dizer que adoro os filmes em que o mal vem de dentro. Não gosto do tipo de violência contra as mulheres, animais ou qualquer outra coisa, mas o mal como uma expressão. Por exemplo, pensemos no “Laranja Mecânica”: é mais maldoso a forma como aquele grupo se comporta, ou o que o Alex passa depois na reabilitação com aquele tratamento ocular? Outro exemplo: escrevi uma novela sobre uma pandemia, antes de termos o problema do Covid-19. O meu livro fala de uma pandemia que exterminou quase toda a população do planeta. Vinte e seis anos depois, miúdos da Europa e dos EUA vão-se reunir e descobrem que a pandemia existiu por causa de cientistas que entendiam que existia demasiada gente na Terra. Ainda no outro dia ouvimos notícias que já somos 8 mil milhões no planeta…
Foi um livro publicado em Espanha e Itália. Aqui tinha o título “Il Terzo Giorno“. Não agora, mas talvez daqui a 2 ou 3 anos possa adapta-lo a filme. Hoje, a pandemia ainda é uma ideia ainda muito presente, muito fresca, mas daqui a 2 ou 3 anos talvez possa fazer um filme sobre isso.
E tem algum filme para estrear em breve?
Não. Fiz um filme há quatro anos que nunca foi completado por problemas de produção.
É um filme com Gérard Depardieu? [Twins]
Sim, foi filmado mas engavetado por problemas de produtores. É um filme que fala do Diabo e quando se toca no Diabo as coisas correm mal (risos). Nunca foi finalizado…
E quando filma algo, ainda pensa nas salas de cinema ou já nas plataformas de streaming?
Depende da ideia que tenho ou do projeto a que me proponho. Sempre fui um realizador comercial, pois acredito que o que fazemos tem de estar dentro da indústria e tem de haver um retorno. Investes dinheiro e tens de receber de volta. Assim, depende das propostas que recebo. Já trabalhei para a televisão, para o streaming e para o cinema. Algumas ideias encaixam melhor na distribuição cinematográfica, mas outras são melhores para as plataformas ou televisão generalista. O cinema é uma indústria e tem que ser lucrativo.
Bem, esperemos que esse filme que está engavetado um dia possa ver a luz do dia…
Acredito no destino. Se no meu destino estiver o lançamento desse filme, assim será. Se o destino dele for ficar na gaveta, assim será. Também não quero me preocupar com a ideia das pessoas pensarem no que raio fiz. “Será que o Lamberto Bava enlouqueceu?”. Talvez seja melhor o filme não ser lançado. (risos)



