Presente no passado Festival de Cannes em quatro filmes – “France“, “The French Dispatch“, “A História da Minha Mulher” e “Traições” -, e já confirmada em 2022 como cabeça de cartaz do novo filme de David Cronenberg (Crimes do Futuro), Léa Seydoux é uma das atrizes mais ativas no cinema atual. E não podemos esquecer a sua presença no último filme da saga James Bond, onde regressou ao papel de Madeleine Swann.
Em “Traições”, a inesquecível atriz de “A Vida de Adèle” interpreta uma inglesa, refém de um casamento a que está resignada, e os seus encontros com o amante, um escritor de meia-idade chamado Philip (Denis Podalydès). Baseado no livro de Philip Roth, “Traições” move-se fundamentalmente através das conversas entre os amantes, havendo um grande foco no erotismo das palavras.
Falámos em janeiro com a atriz sobre esta sua segunda colaboração com Arnaud Desplechin, o cineasta que lhe despertou o interesse pela literatura. Aqui fica a nossa conversa com ela:
Este foi o seu segundo filme com o Arnaud Desplechin. Como é trabalhar com ele e o que o Arnaud significa para si?
É muito agradável filmar com o Arnaud, pois é alguém com uma vitalidade incrível. E essa energia que ele tem, transmite-se para todos durante as filmagens. É sempre muito excitante colaborar com ele. Ele é alguém que instiga também a minha imaginação, inspira-me. É muito inteligente e preciso em nomear e descrever os sentimentos, algo que vemos muito na literatura. E dá também profundidade a esses mesmos sentimentos. Além disso, acho que em França é dos melhores a dirigir atores. Ele consegue dar uma dimensão e complexidade aos sentimentos que um ator tem de expressar. É um prazer trabalhar com ele e não importa o que seja, quero trabalhar com ele.

Devido a essa ligação literária do Arnaud, que se reflete também num guião palavroso, qual foi a sua margem de manobra para interpretar o seu papel?
É um guião muito escrito, palavroso, mas que está tão bem elaborado que para mim não houve qualquer problema em o seguir. Não sou uma atriz que gosta de improvisar em termos de mexer com o texto, embora goste de jogar com as palavras e expressões. Quando era criança e adolescente não era alguém completamente alheada da educação escolar, mas foi com o Arnaud que compreendi a literatura e isso para mim é bastante emocionante. (…) Quando temos um texto, podemos interpretá-lo de forma variada, imaginando várias hipóteses. Quando vou para as filmagens não sei ainda como vou trabalhar as cenas. Por isso, o Arnaud pode falar em improvisação e dizer que nunca sabe o que espera de mim, mas nunca mexo no texto.
A sua personagem tem uma relação erótica com as palavras. O que pensa da relação entre a arte, o cinema e o eros?
O eros é o desejo e o desejo é uma forma de criação. O Arnaud estimula os seus atores a desejar encarnar as personagens, estando estas ao serviço do filme. E valoriza os ator muito, ou seja, é capaz de enviar mensagens a elogiar o nosso trabalho. Não existem muitos realizadores que fazem isso. Nota-se mesmo que adora atores.
Um dos medos do Arnaud Desplechin era o facto da ação decorrer , 80% do tempo, num único espaço. Levou em conta isso para a sua personagem de forma a torná-la mais apetecível de seguir pelo espectador?
Não tinha esse receio pois quando li o guião achei que tínhamos um filme bastante belo. Creio que ele tinha esse medo por causa da narração, que podia perder o espectador. Nunca penso nos espectadores quando interpreto um papel. Penso na substância dessa personagem, o que fazer para a interpretar o melhor possível. Para mim foi um prazer atuar ao lado de um grande ator, o Denis Podalydès. Criámos algo entre os dois que foi verdadeiramente maravilhoso. Algo que já existia no livro e que não é palpável, mas sente-se. (…) Houve alguém que me disse, quando viu o filme, que a sensação que dava é que eu vivia algo de muito íntimo no filme, coisas que estavam nele e que pareciam partir de mim. Gosto de ver atores, como os americanos dizem, “committed” (comprometidos) com os papéis. Os papéis têm de soar verdadeiros e para isso eles têm de colocar-se a si nesses mesmos papéis. Também tenho a sensação que os cineastas, através do argumento, falam deles mesmos nos seus filmes, e colocam coisas muito pessoais.

No filme, existe uma discussão sobre a virilidade. Curiosamente, nos tempos que vivemos, também existe discussão sobre a virilidade da personagem do James Bond. O que pensa deste momento em que todos os “heróis” discutem a sua virilidade?
Gosto que os homens falem da sua virilidade, tal como as mulheres da sua feminilidade. E ambos são frágeis na sua relação com o mundo e até com a sexualidade. Os homens para mim são um mistério, como para eles as mulheres também devem ser. Mas é isso que é belo.
Está habituada a trabalhar em grandes projetos com elencos enormes, como The French Dispatch ou os filmes da saga James Bond, mas este é um registo mais reservado, mais íntimo…
… mais repousante. Por exemplo, por vezes temos filmes com muitos atores e personagens e isso às vezes é demais. Este é um filme de sentimentos, do homem pela mulher e dela por ele. Vejo mesmo o filme com uma história de amor íntima e reduzida a microcosmos.
Quando falei com o Arnaud, ele elogiou-a e disse que a Léa era muito corajosa – por trabalhar com ele e Bruno Dumont – e que tinha uma “concepção nobre do que o Cinema deve ser”. Como escolhe os papéis e que “nobre concepção” sobre o Cinema é essa?
Não posso dizer o que ele entende por “nobre concepção”, mas o Cinema para mim é acima de tudo uma crença. Algo em que acredito e uma forma de questionar o mundo. O Arnaud uma vez disse esta frase e eu acho-a muito bonita. E o Cinema não questiona apenas o mundo, mas cria beleza. E essa beleza que criamos com Cinema é muito necessária.

