Ma Nuit: a brilhante e delicada estreia na realização de Antoinette Boulat

(Fotos: Divulgação)

Com mais de 100 créditos como diretora de casting, contabilizando colaborações com cineastas como Jacques Doillon (Ponette), Leos Carax (Pola X), François Ozon (8 Mulheres), Sofia Coppola (Marie Antoinette), Olivier Assayas (Carlos), Mia Hansen-Løve (A Ilha de Bergman), Lars Von Trier (Anticristo) e Wes Anderson (The French Dispatch), entre muitos outros, Antoinette Boulat estreou-se na realização com “Ma Nuit” (Minha Noite), um delicado e introspetivo estudo sobre o luto e como ele transforma a nossa observação e relação com o mundo.

O centro é Marion (Lou Lampros, excelente), um poço de sofrimento e dúvidas de como continuar a sua vida após a morte da irmã. O nosso primeiro contacto com ela é de profunda turbulência na sua relação com a mãe (Emmanuelle Bercot), a qual convidou amigos da falecida filha para comemorar o aniversário dela. O que se segue é uma viagem sombria, tocante e dolorosa, interna e externa (materializada numa Paris sinistra), a uma personagem e um tema onde as respostas fáceis e resoluções simples são impossíveis de alcançar.

Antoinette Boulat (La Biennale di Venezia – Foto ASAC ph Jacopo Salvi) 

Uma estreia belíssima e meditativa que apresenta ao mundo um “novo” rosto na realização que vai certamente dar muito que falar no futuro. E depois da estreia mundial no Festival de Veneza e uma passagem com sucesso por La Roche-sur-Yon, “Ma Nuit” chegou agora à Alemanha através do Festival de Mannheim-Heidelberg. Foi a propósito dessa presença em terras germânicas que falámos com Antoinette Boulat, a qual nos falou da sua passagem para a realização, a génese do seu filme e um pouco mais sobre as suas intenções.

Tem mais de cem créditos como diretora de casting. O que a atraiu para a realização e porque escolheu esta história para dar esse passo?

A verdadeira questão é mais como cheguei ao casting, já que sempre pensei em fazer um filme. O meu pai era fotógrafo: a imagem fez parte da minha vida. No início da minha carreira, tinha escrito um projeto, mas realizadores que admirava fizeram propostas para eu trabalhar no filme deles e os filmes foram se sucedendo. Adoro casting, embora, no fundo, sempre tenha visto essa profissão como um passo. O “Ma Nuit” nasceu do meu desejo de falar sobre a dor dos irmãos e a perda da inocência que isso acarreta. Queria que o filme fosse um gesto cinematográfico mais do que uma simples ilustração do assunto. Daí a ideia de uma jovem que atravessa Paris, sozinha à noite, e que terá que enfrentar as suas fraquezas, os seus medos e um forte sentimento de solidão. Todos esses sentimentos são, no final das contas, muito cinematográficos.

Portanto, o “Ma Nuit” é uma perambulação, não um passeio. É uma experiência visual e sensorial que traz Marion de volta às questões essenciais relacionadas à sua idade, ao mundo ao seu redor e que está se deteriorando.

Até que ponto todos os cineastas com quem trabalhou influenciaram a sua maneira de filmar o “Ma Nuit”?

Escolher este ou aquele ator é uma escolha “vertiginosa”, uma etapa essencial da produção. A relação privilegiada que tive com estes realizadores através do casting, da sua confiança, tranquilizou-me no que diz respeito à direção do ator, claro, mas também no facto de não prejudicar os seus instintos ao longo da realização de um filme. Tive a sorte de trabalhar com realizadores que não têm medo de correr riscos. E tendo compartilhado esses processos com eles, durante muito tempo, também influenciou o meu comportamento no meu próprio filme: não ter medo, seguir as minhas intuições, lutar para permanecer o mais livre possível apesar da produção e outras restrições. Ao dizer isso, percebo que também é isso que determina o curso de Marion no “Ma Nuit“!

No que diz respeito ao visual, acho que esses cineastas influenciaram a minha maneira de filmar como influenciaram qualquer cinéfilo. Mas as minhas influências são heterogéneas e não cumprem nenhuma regra. Kurosawa e Agnès Varda podem ser encontrados lá.

Ma Nuit

Tudo é sofrimento para Marion, que após a morte da irmã parece não encontrar mais sentido em nada ou conexão com ninguém. A determinado ponto, ela diz que odeia que a irmã a tenha abandonado. Nas suas notas de intenções, fala também de uma geração abandonada num mundo quebrado. Como lidou com o luto e essa visão sombria do mundo?

O luto distorce e transforma a nossa visão sobre o que nos rodeia, é como estar noutra dimensão. E, contra todas as probabilidades, mergulha-nos num estado de grande clareza e lucidez. Como se o infortúnio nos desafiasse. Este é o lado positivo do luto. Isto não quer dizer que não seja tão doloroso e violento. Especialmente numa idade em que precisas de liberdade. Estava interessada em lidar com essa relação paradoxal entre o luto, a relação direta com a morte que ele implica e essa necessidade vital de liberdade. Nesse contexto, o caminho para a resiliência torna-se uma aventura. Tal como a jornada de Marion ao longo do filme, esse tópico levou-me a falar sobre a perda da inocência da juventude no mundo de hoje. Marion é uma jovem independente que sabe dizer não sob o risco de ser rejeitada. Ela tenta escapar, mas mudar e se libertar é um processo violento, especialmente numa cidade como Paris, que pode refletir algo muito assustador. É o seu encontro com Alex que perturba o seu relacionamento com os outros. Gostei da ideia de uma personagem masculina indefinível. Alex é a princípio o desconhecido, o perigo, mas rapidamente passa a ser uma alternativa ao que ela conhece. Ele é aquele com quem ela pode finalmente se libertar e se aproximar dos outros. É um encontro, mais do que uma história de amor.

Como idealizou esta imagem de Paris que não estamos acostumados a ver no cinema (mas que vemos quando a ação se passa nos subúrbios)? E como desenvolveu aquela ideia de que os jovens não se reveem mais na Paris atual?

Efetivamente procurei também fazer um retrato de uma noite em Paris que, como outras grandes cidades do mundo, tornou-se um espaço incerto para os jovens e para os marginalizados. Paris é uma fortaleza dourada: muito bonita na aparência, mas socialmente fragmentada, onde hoje é difícil ter um senso de apego e enraizamento. As ameaças são visíveis ou invisíveis e o medo uma norma. O medo dos outros, da diferença, da indiferença, da violência, do futuro, dos ataques e hoje dos vírus, etc.

Falar de medo era uma forma de falar da liberdade. Sem medo, não conquistamos a liberdade. É difícil, senão impossível, admitir os nossos medos hoje. Para mim, os jovens não estão despreocupados, têm medo, mas isso não significa que não sonhem mais ou que encarem o mundo como vítimas ou que não sejam corajosos. Os jovens são humanistas, mas não têm poderes mágicos, ficam com um mundo em ruínas, mais questões do que soluções e, sobretudo, a sensação de não valerem nada.

Portanto, existe um verdadeiro paralelo entre o mal-estar desta época e o mal-estar de uma cidade. Marion vagueia por Paris como uma equilibrista sobre os seus próprios abismos e os do seu tempo. Como ela, a cidade encarna uma nova melancolia, que só pode ser consolada consigo mesma. Como uma juventude enlutada pelo seu descuido num mundo em ruínas.

Lou Lampros e o Tom Mercier em “Ma Nuit

Agora que se estreou na realização, não foi a responsável pelo casting do seu próprio filme. Confiou essa tarefa a Anaïs Duran. Qual a razão dessa decisão?

Anaïs Duran é a minha assistente há muito tempo e sempre fomos muito cúmplices no trabalho. Não conseguia me imaginar a fazer o casting sozinha, simplesmente porque precisava poder trocar informação e confirmar as minhas intuições.

É alguém muito precisa com o texto/guião ou dá aos atores algum espaço para construir as personagens?

Houve muito poucas improvisações no set. Queria fazer alguns ensaios antes de filmar com cada papel para responder a perguntas e ajustar os diálogos se necessário. Não queria que o filme desse a impressão de ser improvisado, nem uma cópia idiota da linguagem dos jovens. O cinema tende a criar um clichê juvenil, quando existem tantas formas de se expressar quanto personalidades. Mostrar que eles conseguem articular muito bem as suas ideias, a sua sensibilidade, foi uma forma de respeitá-los.

Com a minha equipa construímos com muita precisão o universo de cada sequência. Há uma atenção particular ao sensorial na mise en scène, através da luz, do som, da música. Só porque alguém descreve uma forma de perdição não significa necessariamente que seja necessário ter uma mise en scène inquieta. Queria que o filme fosse uma espécie de experiência e estava à procura de uma encenação simples, mas sofisticada, apesar das restrições das filmagens e da produção.

A Lou Lampros é uma atriz relativamente selvagem, tão física como psicológica. O mesmo vale para o Tom Mercier. Eles tiveram que construir uma emoção para cada sequência. Foi uma escolha ir em direção a esses tipos de personalidades, tive um palpite de que iriam fazer com que as cenas não congelassem e dariam corpo aos diálogos às vezes muito palavrosos. Como as suas personagens, a Lou Lampros e o Tom Mercier são um pouco super-heróis, cujos superpoderes são a sensibilidade, inteligência e ternura.

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