Depois de “Spaghetti Story” (2013) e “Acqua di marzo” (2016), Ciro De Caro apresentou a sua terceira longa-metragem, “Giulia”, mais um filme com uma juventude em marcha para o incerto, entregue a uma liberdade e imprevisibilidade que esconde vazios emocionais difíceis de preencher. “Conto as coisas que conheço bem, não sou um génio e não estou preparado para falar de pessoas de mais idade. Falo das pessoas da minha geração. Faço o que sei”, diz-nos o realizador numa conversa pelo telefone no início do mês de setembro, altura em que o seu filme foi exibido na Giornate degli autori em Veneza.
Reconhecendo que as suas fontes de inspiração e formação passam pelo Neorrealismo e Nouvelle Vague, e destacando nomes como Truffaut, Godard e Agnès Varda, Ciro De Caro diz que usa essas fontes de criação, mas que não se prende apenas ao passado: “Caminho em direção ao futuro” com “um filme livre”, sublinha, sentido-se nele e na energia da sua protagonista a força igualmente do cinema de John Cassavetes, com Rosa Palascian a recordar Gena Rowlands em “Uma Mulher Sob Influência“.

E “Giulia”, escrito por De Caro a meias com Rosa Palascian, filmado durante o primeiro confinamento, carrega em si todas as marcas espirituais dessa Nouvelle Vague, apresentando uma protagonista feminina “incorrecta e controversa” que trafega – tal como as outras personagens – por caminhos de “indecisão, solidão e frustração”, agora em novos tempos repletos de neuroses derivadas da pandemia, onde máscaras e o gel se tornaram continuações do próprio ser humano.
O próprio projeto em si foi alterado pela pandemia. Ele nasceu quando, um dia, Ciro e Giuglia caminhavam pela praia e falaram em fazer algo “rohmeriano“, algo verdadeiramente livre. Um primeiro guião foi escrito, ainda antes da pandemia, mas depois alterado e complementado dadas as circunstâncias, com as novas paranóias da vida quotidiana a serem trasladadas para o grande ecrã, mantendo na sua temperamental protagonista, Giulia, uma “esperança ilusória” de encontrar o caminho para a felicidade, que não se sabe se virá da maternidade, de uma nova relação, ou de simplesmente continuar o seu caminho sem lançar qualquer tipo de âncora que a mantenha estancada a uma vida rotineira. Uma mulher que procura ser amada incondicionalmente como ser livre que é e que abala as certezas existenciais do grupo de jovens que a acolhe, levando-os igualmente a um processo de autodescoberta.
Já com um novo projeto em marcha, onde desta vez vai-se focar em duas mulheres, Ciro continua a dizer que quando filme “primeiro pensa no cinema” e só depois no resto, embora reconheça que nos meses de confinamento e encerramento das salas, “as plataformas de streaming ajudaram”. “O cinema não morrerá, mas alguns tipos de filmes deixarão de passar nas salas”, conclui.

