A Távola de Rocha: uma homenagem sentida de Samuel Barbosa a Paulo Rocha

(Fotos: Divulgação)

Que me lembre, acho que nunca vi um beijo num filme do Paulo Rocha“, diz Isabel Ruth em “A Távola de Rocha”, a primeira incursão nas longas-metragens de Samuel Barbosa, antigo assistente do realizador português falecido em 2012.

Não, não há um beijo em toda a cinematografia do Paulo Rocha. A Isabel Ruth tem toda a razão, mas temos de ver que pode não haver essa demonstração pública, mas existe o ato de amor”, explicou-nos Samuel Barbosa em Locarno, onde o seu documentário teve estreia mundial. E foi nesta cidade suíça, em 1964, que Paulo Rocha deu os seus primeiros passos internacionais com “Os Verdes Anos”, saindo do certame com um prémio. “Era um primeiro filme e foi premiado. O Paulo dizia frequentemente que foi graças a esse prémio, mesmo dentro de portas, que muitos viram que ele ‘até era capaz de ter talento’.

Para Samuel, que chegou a falar com o cineasta sobre o desejo de fazer um filme biográfico sobre ele, o trabalho que efetuou é uma forma de Paulo Rocha ser recordado, até porque sente que existe alguma injustiça nas críticas e avaliações à obra do autor a partir do seu terceiro filme: “Os dois primeiros filmes são muito importantes naquele período e são marcas de um cinema novo comparativamente ao que se fazia anteriormente. Quando vamos ler o que diziam da obra do Paulo, notamos que não refletiam sobre tudo aquilo que ele queria dizer nos seus filmes. Acho que a partir, primeiro de “A Pousada das Chagas”, mas definitivamente depois de “A Ilha dos Amores”, o próprio Paulo estabelece uma nova forma de conceber cinema. Algo mais conceptual, mais próximo das vanguardas, nomeadamente do modernismo, onde existe uma relação campo-contracampo e longos planos em sintonia com o que ele via e gostava do Mizoguchi. Esta relação começa a partir daí e depois houve uma reinvenção a cada filme. Aquilo que o Paulo Rocha tinha – de querer fazer um filme diferente a cada etapa – é algo que do ponto de vista do cinema leva-nos sempre para a frente, a pensar no futuro”. 

O jovem realizador, que terá como próximo projeto um filme de ficção, estava a ver a RTP um dia e cruzou-se com imagens de Paulo Rocha a falar abertamente com os amigos. Percebendo que havia material a explorar, meteu mãos às obras e com a ajuda de Rodrigo Areias na produção avançou para este projeto, que – através de imagens de arquivo, a sua própria experiência pessoal e entrevistas a pessoas com quem Paulo Rocha trabalhou (os atores Luís Miguel Cintra e Isabel Ruth, além da escritora Regina Guimarães) – faz uma viagem ao cinema de Paulo Rocha e à própria vida do realizador, visitando naturalmente o Japão e conversando com algumas pessoas que se cruzaram no seu caminho: “Não tínhamos um guião propriamente dito. Tínhamos uma ideia daquilo que poderia ser importante recolher para a construção do filme”, explica Samuel, acrescentando que o seu primeiro impulso foi pensar nas pessoas e tentar colocá-las nos lugares. “A Isabel Ruth no Campo Grande; o Luís Miguel Cintra no jardim da Gulbenkian com o seu lado japonês; e o irmão do Paulo na casa de férias de Ovar. Eu queria com esses lugares envolver as pessoas nesses cenários que os levassem a recordar outras coisas. O meu papel era mais de ouvinte que participante nessas entrevistas. Quanto menos intervenho, mais as pessoas falam”. 

Colaboração com Rodrigo Areias

Samuel Barboisa e Rodrigo Areias em Locarno. © Locarno Film Festival / Ti-Press / Alessandro Crinari

Foi durante as filmagens de “Vanitas”, de Paulo Rocha, que Samuel Barbosa e Rodrigo Areias se conheceram. Samuel era assistente de produção e Rodrigo Areias trabalhava na direção de som.

Um dia fomos os 3, eu, o Samie [Samuel] e o Paulo almoçar ao Furadouro. Foram Lulas!”, recorda Rodrigo Areias, sobre o momento em que Samuel Barbosa propôs a Paulo Rocha fazer um filme sobre ele. Rocha gostou da ideia, mas algum tempo depois faleceu. “O Samie desistiu da ideia, por razões óbvias, de proximidade e dificuldade em lidar com o tema naquele momento. Precisou de algum tempo para retomar esse projeto. A minha função era espicaçá-lo a não deixar cair a ideia. O Sami não tinha só acompanhado o Paulo nos últimos 12 anos, mas foi também responsável pela finalização do ‘Se Eu Fosse Ladrão, Roubava”. Quando a própria Cinemateca me pede ajuda a mim para acabar o filme para que ele fosse a Locarno, é sempre por intermédio do Samie. O Samuel teve um papel ativo até na catalogação dos arquivos do Paulo. No fundo, o Samuel tinha uma relação com todo aquele material que mais ninguém tinha. O único contributo que dei, para além de ajudar a fazer o filme, financiar e por aí fora, foi tentar incentivá-lo a não desmoralizar. Ia dizer que aqui em Locarno tinha sido a primeira vez que não tinha visto o Samie a chorar ao ver o filme, mas afinal não, porque no fim não conseguiu evitar. Quando, na montagem, fui cortar uns minutos do “A Távola de Rocha”, parecia que estava a cortar dedos, porque o Samuel começava a alucinar. Tudo isto tem a ver com a relação pessoal entre ele e o Paulo e era isso que eu achava que o filme devia ter desde o início. A única proposta que fiz, do ponto de vista estético ou conceptual, foi convencer o Samuel a estar dentro do filme. Se fosse um filme teórico de um realizador sobre outro, ia ficar muito aquém do que podia ser. Este é um filme de homenagem de alguém que amava o outro e era recíproco. O filme, quanto mais pessoal fosse, mais honesto, genuíno e melhor seria”.

O Futuro

A dupla Samuel Barbosa e Rodrigo Areias já tem um novo projeto em marcha. Samuel, timidamente, esconde o jogo, falando apenas de “uma figura mítica portuguesa, alguém que se supera e vence”. Mas com a ajuda de Rodrigo Areias, que lhe relembra que o projeto já é público, Samuel lá admite que está a preparar um filme sobre o famoso pugilista português Santa Camarão, que era de Ovar.

Mais um de Ovar. Só fazes filmes de Ovar e não se fala mais nisso”, brinca Rodrigo Areias, lembrando que Santa Camarão foi o primeiro ator a falar português no cinema: “A primeira sequência na História do Cinema falada em português é dele”.

Cada etapa da sua vida é melhor que anterior”, adiciona Samuel Barbosa, que há anos tem este projeto em mente, tendo já investigado muito sobre a vida de José Soares Santa, ou “Santa Camarão” para os amigos. “Gosto de fazer filmes sobre pessoas“, conclui.

Além da exibição em Locarno e no IndieLisboa, A Távola de Rocha chegará comercialmente às salas nacionais.

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