Um dos filmes mais curiosos e sentidos do último Festival de Cannes estava no coração da famosa Quinzena dos Realizadores. “Entre Les Vagues” (The Braves), a segunda longa-metragem da realizadora francesa Anaïs Volpé, já com grande experiência no teatro e dada à hibridez no seu cinema, contava a história da amizade entre duas mulheres, Margot e Alma, que concorrem ao mesmo papel numa peça de teatro. Uma delas é escolhida, mas uma doença põe em risco a sua participação na peça, podendo o papel ser entregue à colega e amiga.
Um filme extremamente luminoso e colorido antes de inevitavelmente se transformar em pesado e duro, mas que mostra que mesmo dentro da concorrência no mundo artístico a amizade pode se impor e ser mais forte que tudo.
Falámos com Anaïs Volpé sobre a sua obra que levou o Festival de Cannes às lágrimas, mesmo sem necessidade de qualquer tipo de manipulação emocional.
Apesar deste ser um filme cheio de sentimento e dor, a Anaïs não o transformou numa obra de “fazer chorar as pedras da calçada”. Um “tearjerker” como se costuma dizer nos EUA. Como trabalhou para conseguir isso?
Queria fazer um filme que abordasse em temas tocantes e difíceis, mas mostrar igualmente tudo que acontece em paralelo; as coisas engraçadas, quotidianas, que nos acontecem mesmo nesses momentos mais complicados: o amor e as situações mais absurdas e cómicas. Pretendia mostrar essa mistura de sentimentos num momento difícil.
E para apresentar a amizade de duas pessoas que trabalham no mundo das artes, normalmente assistimos a momentos de grande competição, mas aqui é diferente. Tudo é bem saudável. Era importante para si mostrar isso?
Sim, bastante importante. Conseguimos ser amigos mesmo com a grande competição entre nós. Necessariamente as coisas não são um mar de rosas, como vemos no filme quando as duas amigas concorrem a uma peça de teatro e uma delas ganha. Mas falando da minha experiência, é verdade que temos uma forte concorrência no mundo das artes, mas também existe muita amizade.
Não digo que não haja gente que canibalize os outros, que não existam traições, mas queria mostrar o outro lado das coisas.

O teatro assume no enredo muita importância. A Anais trabalha no teatro. Existe algo autobiográfico neste filme?
Bem, tudo e nada (risos). É claramente uma ficção, mas naturalmente existem coisas que emocionalmente passei. Dentro desta ficção coloquei muitas coisas que experienciei, seja na amizade, na vertente cómica ou nos momentos mais tristes.
Há muita energia e cor no seu filme à medida que vamos conhecendo as personagens, mas progressivamente a fita vai ganhando um tom mais sombrio sem perder a luz. Como foi esse jogo visual e como trabalhou com o diretor de fotografia para conseguir isso?
Queria verdadeiramente fazer um filme muito colorido, com uma energia muito viva, contrariando a jornada que as duas heroínas vão atravessar. Foi algo que fui pedindo sempre ao diretor de fotografia, o Sean Price Williams, de quem adoro o trabalho. Queria uma proximidade dos 16mm e cores extravagantes, pois estas são protagonistas que transmitem em si essa vivacidade e cor. Falei com o Sean durante muito tempo sobre o que queria. Artisticamente partilhamos os mesmos gostos e felizmente tínhamos na mente o mesmo filme.
E como foi o seu trabalho com as atrizes? Houve um casting ou foi tudo imaginado e escrito com elas as duas no protagonismo?
Não tinha ninguém em mente quando escrevi o guião. Sabia que queria duas atrizes que preenchessem o ecrã e olhei para muitas que trabalhavam em França. Conhecia bem e gostava da Souheila Yacoub e da Déborah Lukumuena, mas muitas vezes há atrizes que gostamos mas que juntas não funcionam. Havia duas problemáticas neste casting. Era fundamental, primeiro, acreditar que as duas partilham uma amizade muito forte, e depois queria que fosse muito virtuosas dramaticamente…
Foi como disse à Deadline, queria duas Meryl Streep…
Sim, era isso (risos). Muitas vezes até acreditamos na questão da amizade, mas não tanto na virtuosidade de serem atrizes de teatro. Quer a Déborah, quer a Souheila cumpriram todas as exigências do casting e falei muito com elas sobre as personagens e o filme. Criámos muitas vezes um trio para trabalhar em conjunto e exigi muito delas. Falámos dos diálogos e elas revelaram ser muito fortes e inspiradas.
E é muito meticulosa com o argumento ou deixa algum espaço para as atrizes preencherem e construírem as suas personagens?
Não há de todo qualquer improvisação, tudo está muito escrito. Ambas são atrizes muito fortes, brilhantes e senti a maneira natural como se apropriaram do texto. Senti na forma como interpretaram que partilhamos uma espécie de DNA comum. Todas vemos as personagens da mesma maneira, talvez pela proximidade entre as nossas idades. Não existiram muitas mudanças no texto nem improvisações. Tínhamos de ser rigorosos em cada momento do filme.

E dentro do panorama do cinema francês, onde se posiciona? Como define o seu cinema?
É complicado nós definirmos quem somos dentro de algo tão denso como o cinema francês. Deixo assim a palavra para as pessoas externas. O que posso dizer é que tal como muitos outros realizadores e realizadoras tento fazer as coisas com o coração, contrariando limitações e formatações. Tento criar as coisas à minha maneira. É assim que vejo o mundo artístico e é assim que os artistas emergem, com a sua própria visão (…) No meu caso, gosto de misturar o teatro e o cinema. Gosto por exemplo do facto de inserir no filme uma peça de teatro que também escrevi paralelamente ao filme. E quis trabalhar com um diretor de fotografia norte-americano. Havia igualmente muita gente jovem atrás das câmaras, alguns no seu primeiro trabalho. Ao mesmo tempo havia gente com mais experiência. E gosto de misturar gente de diferentes horizontes para explorar a sua cultura, experiência e fazer um filme em conjunto como este. Esta é a imagem do meu percurso e cinema… híbrido.
A consciência da nossa própria mortalidade é um tema que nos move a todos. Vais continuar a abordar no futuro este género de temas?
Acima de tudo o que me move são as relações humanas ou a família. Penso que o denominador comum dos filmes que faço desde o início é a culpabilidade como tema. No meu primeiro projeto, Heis, falamos muito da família e a culpabilidade no seio dela. Como nos emancipamos da família sem sentir uma culpabilidade? Temos o direito de nos afastar, ou de ficarmos próximos dela? Neste filme também existe esse tema, que é uma questão moral. Será que uma delas vai ocupar a vaga da amiga [doente] ou não? Este é um tema que me obceca um pouco, mas acho que toca a todos.
E já trabalha num novo projeto?
Neste momento tenho algumas ideias que tomo nota aqui e ali. Acabei este filme há dois meses, por isso estou a repousar um pouco de tudo. Há um ano estava a prepará-lo e não parei desde então.
Mas sim, tenho alguns projetos mas nenhum atualmente a decorrer. Vou saber qual seguirá para desenvolvimento dentro de semanas.
Olhando para trás, o seu filme estreou na Quinzena dos Realizadores. Como viu essa estreia e o que significou isso para si?
Foi como um sonho. É curioso pois faz quinze anos que cheguei a Paris. Durante esses quinze anos trabalhei muito. Estar na “Quinzena” (risos) foi maravilhoso. Gosto muito da programação deles, da sua exigência, a forma de acolher os artistas, a forma de os valorizar. É uma secção que adoro e não podia esperar melhor, por mim e por todos que trabalharam neste filme. É uma seleção muito prestigiante.

