Incumbido de decidir o vencedor do Leopardo de Ouro de 2021, entre 17 produções de peso, sendo as favoritas “Medea” e “After Blue (Paradis Sale)”, o cineasta Philippe Lacôte, da Costa do Marfim, é o nome de maior conexão com causas sociais no júri do Festival de Locarno deste ano, presidido pela realizadora americana Eliza Hittman. Além dela, ele tem visto filmes ao lado do videoartista e cineasta Kevin Jerome Everson (EUA) e das atrizes Leonor Silveira (Portugal) e Isabella Ferrari (Itália). É uma equipa unida pela busca de um olhar poético que vá além da sociologia e além das regras semióticas. De modo geral, o cinema de Lacôte persegue essa poesia que vem de dimensões marginais e de espaços de abandono (convertidos pelas suas lentes em instâncias de inclusão). Era assim no documentário “Cairo Hours” (2002) e no thriller “Run” (2014), com Isaach De Bankolé. E é o que vemos em “A Noite dos Reis” (“La Nuit Des Rois”), em cartaz no circuito português.

“A minha estreia no cinema foi como projecionista, o que me fez essa arte como um lugar de desejos e fantasias que não se esgotam. Existem realizadores que confirmaram o quanto o poder imaginativo da arte cinematográfica é inesgotável, como Glauber Rocha, Fassbinder e Souleymane Cissé. Na minha formação, fui de John Woo a Djibril Diop Mambety. Construí, no exercício da profissão de cineasta, a percepção de que o contador de histórias. Ogriot ou griô d’África é uma classe específica de fabuladores, que não carecem de exotismos. E aprendi que um cineasta não conta histórias, como os griôs. Nós, realizadores, dependemos de imagens e de sons. Mas tocamos emoções”, disse Lacôte ao C7nema, via email.
Há uma lógica bruta no universo de “A Noite dos Reis” (“La Nuit Des Rois”). Lá, manda quem narra, quem controla o que é narrado, quem fabrica fábulas e “meias verdades”, as tais fake News dos nossos dias. Narrar é a lei em MACA, sigla para Maison d´Arrêt et de Correction d´Abidjan, termo dado a uma prisão com casos de superlotação – e brutalidades – na Costa do Marfim. O local e as suas regras acerca do dom da arte da palavra e da sua propagação – num processo físico de emissão capaz de dar forma à mitologia representada pelos Exus, aqueles que levam e trazem recados – serve de palco a um dos filmes mais fascinantes de África para o cenário dos festivais nos últimos dez anos.
“Filmes de prisão são um género em si, com um código próprio. Há que respeitá-lo, mas é possível ir além dele, como tentei, pois não quero a prisão como espaço físico, para me servir como arena. Quero entender uma prisão como uma sociedade à parte, autónoma, com seus próprios funcionalismos. Lá existem códigos próprios. E existem crenças”, disse Lacôte. “Hoje La MACA está sobrelotada, cheia de gente pobre. É muito fácil acabar na prisão, na Costa do Marfim, se você não tiver dinheiro para se livrar das penas. Portanto, são os jovens das classes pobres que acabam parando lá, sem qualquer perspectiva”.

Lançado no Festival de Veneza de 2020, “A Noite dos Reis” é um estudo sobre a tradição dos griôs, os bardos a’África, e ganhou o Prémio Amplify Voices em Toronto, antes de arrebatar a láurea do júri jovem de Roterdão, na Holanda – uma das maiores mostras do planeta. Na longa-metragem há uma frase numa parede da cadeia retratada por Lacôte: “Se Deus diz ‘sim!’, o Homem não pode dizer ‘não!’”. Esse é o lema daquele purgatório de culpas condenadas pela justiça, onde toda a legislação é operada por uma figura chamada de Dangoro, uma espécie de “xerife”, que normatiza o que pode e o que não pode. O Dangoro dessa espécie de Presídio da Ilha Grande no peito da floresta é Barba Negra, figura monolítica que Steve Tientcheu compõe numa atuação fascinante. É uma figura assustadora mas, ao mesmo tempo, paternal, alquebrada. “Tentei levar para aquele mundo um gesto político, de sugerir que um presídio possa ser um espaço de criação, de fábula”, diz Lacôte.
Carregando um tudo de oxigénio e um nebulizador, Barba Negra sofre de uma doença nas vias respiratórias. Numa lógica que aciona a recordação de um poema de Drummond – “O meu nome é tumulto e inscreve-se na pedra” -, o turbilhão que Barba Negra gerou no seu mandato deve seguir a educação sentimental da cadeia, segundo a qual um corpo fragilizado não pode preservar uma alma de líder. É chegada a hora dele deixar o posto – e o mundo carnal – num haraquíri. Mas a presença de Lass (Abdoul Karim Konaté), como o seu potencial substituto, cria um incómodo no seu coração. Os Dangoros devem rezar por uma cartilha que os ocidentais aprenderam com Platão, na figura do Guardião: segundo o filósofo grego, quem deve guiar a pólis é alguém com coragem, temperança e sabedoria. O mesmo vale para a prisão. Ambicioso, Lass não preenche nenhum desses requisitos.
Na fervura máxima dessa panela de pressão sociológica, La MACA recebe um rapaz (vivido por Bakary Koné) que acaba de ser preso por um crime sem violência, um roubo. “Aquela cadeia está repleta de jovens dos dois principais subúrbios da classe trabalhadora da região de Abidjan: Yopougon e Abobo. Estas duas comunas são os bairros mais próximos da prisão”, diz Lacôte, citando a origem da personagem vivida por Koné.

Há nele a pureza essencial dos guardiões platónicos – e dos Dangoros. Mas, para assumir o posto, na viragem da lua (a chegada de uma tal de Lua Vermelha, onde o satélite adquire um espectro rubro), o rapaz precisa passar por um ritual que consiste em contar uma história que possa entreter e transcender a população carcerária, gerando uma catarse coletiva. Obrigado por Barba Negra a assumir essa missão, o jovem faz o que há de mais simples: vasculha o baú das suas vivências e faz jus ao conceito político do “lugar de fala” narrando o que viveu com toda a legitimidade que as cicatrizes permitem.
Numa narrativa claustrofóbica, que vem da fotografia de Tobie Marier-Robitaille, Lacôte cria uma ode apaixonante sobre o papel redentor das fábulas, unindo magia e sociologia em um casamento inusitado. Mas duradouro. “Não era a minha intenção fazer um filme bonito, estilizado, e, sim, algo que se parecesse com um documentário, sem notar a câmara entre nós e aquele universo”, diz Lacôte. “A partir de um registo quase documental eu busco mostrar como a fábula pode superar a violência social”.

