I Comete: Da Córsega com amor

Nos cinemas a 7 de julho

(Fotos: Divulgação)

Depois de passagens bem sucedidas pelo Festival de Roterdão, Moscovo e IndieLisboa, “I Comete”, a primeira longa-metragem do ator, realizador e encenador Pascal Tagnati chega aos cinemas comerciais em Portugal.

Seguindo as atividades quotidianas de uma vila da Córsega num verão, onde não faltam as festas típicas da estação, os namoros, as amizades, mas também os desaguisados, o realizador entrega um objeto vivo e repleto de humanidade, misturando atores profissionais e amadores, que contribuíram para o texto com alguns diálogos. 

Os diálogos foram escritos a 80%. O restante foi captado, surgiu no momento”, explicou-nos o realizador em entrevista

Pascal Tagnati

Segundo Pascal, o que lhe interessava mostrar neste seu “I Comete” era colocar personagens de ficção no centro do real e esperar para ver o que de lá saía, sendo o verão a estação ideal para que isso aconteça, já que muitos que vivem na cidade voltam às aldeias e vilas: “Às vezes há bons acidentes, às vezes não acontece nada. Não procuro entregar uma sensação de verité, o que me interessa é a energia. A verité não me interessa (…)  Estimei que o verão na vila seria o ideal para um filme. É nessa altura que todos os corsos da diáspora, de todas as classes sociais, se reencontram durante um mês e meio, dois no máximo. Todos no mesmo sítio, a contar uns aos outros o que vivem durante o resto do ano. É esta concentração de gente num microcosmos que me fascinou e divertiu”.

Reconhecendo que “fez o filme que quis” e que o seu trabalho em “I Comete” não foi diferente dos seus filmes anteriores (duas curtas-metragens), Pascal ainda assim diz que toda a experiência das filmagens foi muito forte do ponto de vista humano, e que todas as personagens vieram da sua mente, mesmo que existam inspirações ligeiras em pessoas que conheceu ao longo da vida: “Inspirei-me em algumas pessoas que fizeram parte da minha vida, mas  todas as personagens aqui são ficcionais. Por exemplo, o único homem negro da vila é totalmente fruto da minha imaginação, mas vem de um contexto particular que é o de que certas vilas na Córsega terem afrodescendentes, muitas vezes comerciantes. Encontramos várias uniões entre corsos e africanos. Mas aquela personagem, o François, não existe de todo. Talvez daqui a uns anos venha a existir”.

Sem estereótipos, mas com um tom universal

Mostrando uma vila como outra qualquer – até podia ser uma vila portuguesa com a chegada dos emigrantes no verão – “I Comete” mostra sim um lado menos comum dos habitantes da ilha, frequentemente reduzidos no cinema francês a estereótipos. Pascal nega a intenção do seu filme ser uma espécie de reação a esses lugares comuns permanentes do cinema gaulês. “Há filmes que abordam o banditismo na Córsega que são bons. O banditismo existe e também existem certas questões políticas importantes. Essas coisas existem, mas na minha vida essas questões estão muito pouco presentes. Tenho uma vida muito normal, não tenho ligações políticas. Claro, há conhecidos que saíram da prisão, outros que são advogados, maçons, etc. Tenho uma vida normal e mostrei isso no filme. Mostrei coisas que são concretas para mim.

Estética

Ficção com sensação e colagem muitas vezes ao cinema do “real”, desde o início a intenção do realizador era colocar o espectador como um verdadeiro voyeur que observa o que se vai passando a uma certa distância. Exemplo disso é uma cena magistral, onde assistimos a uma daquelas típicas lutas entre dois homens no final de uma noite regada com muitos copos: “Desde o início, a minha ideia para essa cena era um plano de sequência fixo, sem movimento a uma distância razoável. A distância joga sempre com a intenção. Queria uma ideia de alguém que passa, vê aquela situação, pára e fica a olhar. E com o seu olhar estrangeiro tenta entender o que se passa e quem são as personagens. Nestas vilas há sempre alguém que nos está a ver. Por outro lado, quando entramos no íntimo e nas histórias pessoais das personagens, aí não tive outra hipótese senão aproximar-me delas e mostrar aquilo que são. Mas de maneira geral é essa a ideia, a distância vai regulando a intenção da cena”. 

(Texto originalmente escrito em julho de 2021)

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