Já lá vão 12 anos desde os Óscares dados a “The Artist” e, desde então, o realizador parisiense Michel Hazanavicius fez experiências narrativas das mais diversas, da biopic (“Le Redoutable”) até a fábula (“Le Prince Oublié”, que, lançado às vésperas da pandemia, fracassou no empenho em faturar milhões). O convite para abrir Cannes, em 2022, com “CoupeZ” renovou o seu prestígio, que, apesar da estatueta hollywoodiana, não o levou a filmar nos EUA. O cineasta ficou em França e, por lá, rodou o que se transformou na animação de maior procura popular deste Festival do Rio: “La Plus Précieuse Des Marchandises”.
Nomeado à Palma de Ouro de Cannes e ao Cristal de Annecy, a longa-metragem é baseada no best-seller homónimo de Jean-Claude Grumberg, lançado nas livrarias em português como “A Mercadoria Mais Preciosa”. Durante a passagem pela Croisette, Hazanavicius conversou com o C7nema sobre a produção, que terá projeção no evento brasileiro esta terça-feira, no Estação NET Gávea.
“O produtor chegou a este projeto antes de mim, antes que eu lesse o livro. Jamais havia pensado em fazer algo ligado ao Shoah antes, pelas minhas origens familiares judaicas. Tinha uma questão de legitimidade histórica, até pelo facto de eu ter nascido em 1967, bem depois da Guerra. Mas a possibilidade de abordar o tema sob uma ótica fabular e a força do texto de Grumberg interessaram-me. Existe uma pergunta que aquele livro evoca ao falar do Holocausto: ‘Se Deus existe, onde estava ele quando tudo aquilo aconteceu?’. Eu só não queria ser explícito na representação da violência dos nazis. Preferia que a imaginação da plateia desse conta disso”, disse Hazanavicius em Cannes. “Sou um realizador ligado à comédia, a filmes leves. Fazer uma animação também era um desafio. Hesitei até que a minha mulher (a atriz Bérénice Bejo) disse-me: ‘Você tem que fazer’. Aí…”.
“La Plus Précieuse Des Marchandises” marcou a estreia de Hazanavicius em formato de confecção de dramaturgia diferente do que Hazanavicius se acostumou a fazer com atores nos sets. “Fazer um filme animado é bem diferente do live-action, principalmente por conta do trabalho com a engenharia de som exigido pelo formato, no qual o impacto sonoro é essencial”, disse o realizador, que sofreu com a rejeição a “Le Prince Oublié”, em 2020, apesar do carisma de Omar Sy num enredo sobre um pai em crise com a adolescência da filha: “Inegavelmente, fizemos o que se chama de ‘filme de família’, pois tentamos conversar com os públicos infantojuvenis, a partir de criaturas mágicas e situações fantásticas, enquanto, ao mesmo tempo, tentamos falar com os adultos, pelo prisma da angústia do ninho vazio, do desapego dos filhos quando eles entram na adolescência. Fui levar o meu filho mais novo numa projeção e ele disse-me: ‘Pai, isso aqui tem a ver contigo? É sobre nós, não é?’. Malandreco, ele”.
Na dolorosa trama de Jean-Claude Grumberg animada por Hazanavicius, um casal de lenhadores observa, diariamente, carruagens atulhadas de gente a passarem diante dos seus olhos. Ingénua, a mulher espera por um aceno ou mesmo um presente. “Para onde vão essas pessoas?”, ela pergunta. Até que alguém atira pela janela o presente que ela jamais pensou receber: um bebé. O marido, num primeiro momento, pensa em devolver a criança, mas, pouco a pouco, encanta-se pela menina e deixa o instinto paterno aflorar. A narração foi feita por um mito das telas Jean-Louis Trintgnant (1930-2022), pouco antes da sua morte.
“O Jean-Louis era a voz mais bonita do cinema francês. Foi incrível gravar com ele e agora que ele não está mais aqui, entre nós, a sua voz sente-se ainda mais presente”, disse Hazanavicius, que conta que o trabalho de produção dos desenhos, na direção de arte, levou cerca de três anos para sair do papel. “Não procurei reproduzir a realidade como ela é. O meu maior empenho era fazer um ensaio humanista, um tributo ao coração”.
O Festival do Rio prossegue até ao dia 13 de outubro.


