Pilar emocional do novo filme de André Téchiné, Les gens d’à côté (Os Novos Vizinhos), Isabelle Huppert prossegue o seu percurso impressionante no cinema, mantendo uma média de três a quatro participações anuais nos últimos cinco anos. Do trabalho com nomes já consagrados do cinema de autor — como François Ozon (O Crime é Meu, 2023), Hong Sang-soo (As Aventuras de uma Viajante na Coreia do Sul, 2024), Patricia Mazuy (A Prisioneira de Bordéus, 2024) e o próprio Téchiné— às colaborações com realizadores emergentes, como Flora Lau (Luz, 2024) e Élise Girard (Sidonie au Japon, 2023), a atriz septuagenária mantém-se incansável, embora nos jure — numa entrevista realizada na Berlinale, em fevereiro passado — que faz longas pausas para “não fazer” absolutamente nada, ou pelo menos tentar. “A Marguerite Duras dizia que é muito difícil não fazer nada. Mas, na verdade, não é tanto que seja difícil — é que não é muito agradável. A mente começa logo a fazer coisas quando não fazes nada”, explica a atriz, que mantém uma presença intensa nos palcos do teatro.
“Sim, estou em ensaios neste momento”, dizia-nos em relação à peça Bérénice, que, depois de estrear em Montpellier, no Printemps des Comédiens, passou por Paris, no Théâtre de la Ville – Sarah Bernhardt, e depois a Milão, no Piccolo Teatro. Em maio, foi ao Barbican, em Londres, com Mary Said What She Said, de Robert Wilson, alguém que descreve como uma força da natureza e um poeta visual. Sobre Romeo Castellucci, com quem trabalhou em Bérénice, diz que este é “um visionário onde encontra liberdade total”.

Entre filmes e palcos, a vida pessoal atravessa discretamente a conversa; quando o tema recai na carreira da filha, Lolita Chammah, a resposta é desarmante e direta: “Sim, claro. Tenho muito orgulho nela. É uma atriz brilhante.” E sobre a sua carreira, não existem hesitações em dizer que também sente orgulho. “Gosto de explorar modos de atuar e filmar tão diferentes. O cinema pode ser enorme ou minúsculo — e ambos têm o mesmo poder”.
Em Os Novos Vizinhos, que chega no dia 23 de outubro às salas nacionais, Huppert reencontra Téchiné, mais de 40 anos depois de colaborarem em Les Sœurs Brontë (As Irmãs Brontë, 1979): “Não trabalhámos juntos há muitos anos, mas fomos mantendo conversas nesse período e sempre manifestámos a intenção de colaborar novamente. Foi uma experiência como a vida: longa e curta ao mesmo tempo.”
Escrito por André Téchiné e Régis de Martrin-Donos, Os Novos Vizinhos centra-se em Lucie (Huppert), uma solitária agente da polícia científica cujo companheiro — também polícia — se suicidou. A sua rotina é abalada com a chegada à vizinhança de um casal e da sua filha pequena. Lucie sente-se atraída pelos novos vizinhos, até descobrir que Yann, o pai, é um anarquista, o que a coloca num dilema moral. “De uma maneira muito subtil, Téchiné emociona e cria cenas tocantes”, diz Huppert, que se recusa a definir a sua personagem de forma taxativa quando questionada sobre se ela é verdadeiramente solitária ou simplesmente ferozmente independente: “É uma excelente pergunta, mas essa interpretação terá de ser feita pelo espectador. Por mim, podemos ver as duas coisas simultaneamente.”

Com um fundo político assumido — contrapondo os que justificam a violência para combater o capitalismo selvagem e a polícia que é chamada a “salvar a República” —, Huppert interpreta uma mulher magoada pela vida e pela morte do parceiro: solitária, sim, mas não sozinha. “O André pediu-me sempre para não fazer uma cara triste ou melancólica, porque a solidão normalmente desperta esses clichés. Ele pediu-me explicitamente para fugir a isso”, explica Huppert, que valorizou a forma como o cineasta tratou a figura do polícia: “Raramente vemos uma manifestação da polícia no cinema. É importante que eles possam ser vistos como um grupo humano, com carências, frustrações e falta de atenção. Há muitos preconceitos. A minha personagem é uma cientista da polícia — o que já a coloca num lugar diferente. Mas, no fundo, todos lutam por uma forma de ordem, por algo em comum.”
Confessando que nunca flertou com ideias radicais, embora na juventude, durante o Maio de 68, tivesse muitos amigos que as seguiam, Huppert mostra-se intrigada com o confronto entre os dois mundos aparentemente opostos que o filme propõe. E manifesta curiosidade viva pela figura do homem — pai de família e artista talentoso — que defende ideias anarquistas. “Talvez o filme pergunte se um artista tem de ser, necessariamente, um rebelde”, reflete Huppert, antes de acrescentar mais sobre a sua personagem: “Ela quer encontrar novas pessoas, novos vizinhos, novas experiências. E, no fim, acaba outra vez sozinha. Gosto desse ponto de interrogação final. Havia outro final, mas o Téchiné quis deixar a incerteza.”






