Élise Girard: “aconteça o que acontecer, temos sempre a escrita”

(Fotos: Divulgação)

Logo depois de ter estreado “Belleville-Tokyo”, em 2010, onde a cidade japonesa é um espaço ficcional criado por uma das personagens que diz que vai para lá vai, mas no fundo afasta-se apenas até Belleville, em Paris, a realizadora francesa Élise Girard foi convidada pelo distribuidor japonês para visitar o país. Ela assim o fez, viajando pela primeira vez até à Ásia. Aí, ela passou por diferentes estados de espírito e sensações que, anos depois, inspiraram a criação da sua terceira longa-metragem, “Sidonie au Japon” (Sidonie no Japão), exibido este domingo na Festa do Cinema Francês.

O Japão para mim sempre foi uma ficção, uma fantasia”, disse Élise ao C7nema este domingo, horas antes de partir para o Cinema São Jorge, onde apresentou o seu filme. “Quando estive lá pela primeira vez, depois de lançar o “Belleville-Tokyo”, estive perante condições de exceção, ou seja, vi um Japão muito particular, o turístico. Era muito bonito e não tive contacto com nenhuma violência social. Foi a primeira vez na vida que vivi uma verdadeira sensação de deslocamento. De ir para um país e me sentir desorientada. Mas foi uma desorientação doce, não violenta. Inspirei-me neste sentimento para escrever o “Sidonie no Japão”, mas o retrato que faço é ficcional. Usei esta história para exprimir o que senti, onde a distância geográfica [‘foi a primeira vez que estive tão longe da Europa’] e o facto de não entender nada do que diziam deu-me muito para refletir”.

Em Sidonie no Japão, protagonizado por Isabelle Huppert, acompanhamos uma escritora que decide, pela primeira vez, visitar o Japão e participar na promoção de um livro de grande sucesso. Aí espera-a o seu tradutor japonês, Kenzo Mizoguchi (Tsuyoshi Ihara), com quem vai criar laços, isto enquanto o fantasma do seu falecido marido (August Diehl) teima em aparecer.  “Inspirei-me em escritores reais para a personagem da Sidonie”, contou-nos Élise.  “Sempre me intrigou o facto do J. D. Salinger ter deixado de escrever a determinado ponto da vida. Para mim é um mistério, a decisão de parar de escrever. Por outro lado, também me interessava pelo início da carreira da escritora Françoise Sagan. Inspirei-me nela, que ficou muito famosa e conhecida muito jovem. Mas também me inspirei na verdadeira Isabelle Huppert, que também tornou-se conhecida ainda em jovem, após ganhar um prémio de interpretação em Cannes, aos 23 anos. Já a escolha do nome Sidonie vem da Colette, que adoro e é a minha leitura de cabeceira. Também gosto da [Marguerite] Duras, mas a Colette e a Françoise são as minhas favoritas”. 

Admitindo que “aconteça o que acontecer, temos sempre a escrita”, e que os seus guiões “são muito precisos na exposição das  palavras, silêncios e olhares”, Élise Girard confessa que Isabelle Huppert surgiu-lhe muito cedo no pensamento para interpretar o papel principal: “Nunca penso em escrever um filme para uma atriz em especial, mas frequentemente começo a escrever e há uma atriz que começa a entrar-me na mente. Com a Huppert foi assim. Até o meu coargumentista disse-me logo que estávamos a falar da Isabelle Huppert. Claro que tive medo dela dizer não ou não poder fazer o filme. Ela participa em grandes filmes e isso tornou-me um pouco tímida para a abordar. Mas ela é adorável e impõem-se em qualquer papel”.

Isabelle Huppert e August Diehl

O mesmo se pode dizer do alemão August Diehl, que aqui interpreta o papel de Antoine, o falecido marido de Sidonie que começa a aparecer à esposa quando ela chega ao Japão. “Filmar um fantasma é como filmar um sonho. O cinema permite isso”, explica Élise, que forçou Huppert a filmar as cenas em que interagia com o marido com o famoso ecrã verde, sendo depois, no pós produção introduzidas as interações com Diehl. “Queria uma pessoa real, não um espectro”, prosseguiu a cineasta. “E queria que ele mantivesse o aspeto que tinha quando faleceu. Olhando para os dois, ela envelhecida, ele mais jovem, fica uma sensação de tristeza. (..) Sempre quis um fantasma ocidental e de o transportar para um filme um pouco japonês. Normalmente, os fantasmas no cinema japonês metem muito medo. Eu queria um fantasma simpático. Inspirei-me muito no fantasma de “The Ghost and Mrs. Muir” (O Fantasma Apaixonado), do Joseph L. Mankiewicz, o qual vai aparecendo no filme e é muito engraçado”. 

A completar o tridente de atores do filme, temos ainda Tsuyoshi Ihara como Kenzo Mizoguchi, o tradutor japonês dos livros de Sidonie, que bem cedo explica que o seu nome é muito comum no Japão e que não tem qualquer grau de parentesco com o cineasta homónimo. Tsuyoshi Ihara não falava francês e, por isso, durante seis meses, aproveitando o confinamento global do Covid, ensaiou e aprendeu foneticamente as suas deixas com a realizadora, via Skype, duas vezes por semana, em sessões de hora e meia. “Isto ajudou muito a que nos conhecêssemos bem durante esse período, mesmo que às vezes só tenhamos falado de coisas mundanas (…) Este processo ajudou-me muito quando cheguei ao Japão para as filmagens. Quando nos encontrámos, tínhamos a sensação que já nos conhecíamos”.

A Festa do Cinema Francês prossegue em Lisboa até 13 de outubro.

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