“A Prisioneira de Bordéus”, o novo filme de Patricia Mazuy, sofreu muitas mudanças desde que começou a ser concebido em 2012, como objeto de observação e análise social. Nascido nas mentes de Pierre Courrège e François Bégaudeau – com quem Pierre havia colaborado em “Un Homme d’État”, a produção partia de uma grande investigação da dupla e de inúmeras filmagens em casas de abrigo – espaços localizados na área de visitas dos estabelecimentos prisionais. Durante seis anos (2012-18), a dupla “não conseguiu encontrar o seu filme” na ilha de montagem e, em 2019, o projeto foi proposto a Mazuy.
“Esse projeto nas mãos de Frederick Wiseman seria uma obra-prima, ou então poderia ser transformado num filme à la Ken Loach. Mas isso não é o meu cinema”, disse a realizadora ao C7nema, numa entrevista em Paris no início de 2025. “Os diálogos eram fortes, mas não havia melodrama. Eu não trabalho com isso, ‘não é a minha praia’. Por isso quis fazer uma nova história, que escrevemos entre 2019-2021”.

Uma das muitas belezas em conversar com Patricia Mazuy é que ela não tem aqueles filtros que sentimos frequentemente por parte dos entrevistados, a não ser quando embarca na explicação de certas opções técnicas conectadas a segredos importantes do filme, os quais prefere manter longe de qualquer pessoa que não assistiu à obra. Por isso mesmo, não teve problemas em nos contar que numa primeira abordagem à sua história, alguém chegou a dizer que o conceito era “politicamente incorreto”, fazendo-a olhar novamente para o guião com vista a complexificar certas questões, como a personagem de Mina, interpretada por Hafsia Herzi, como uma jovem mãe que mora num subúrbio distante da prisão onde o marido se encontra detido, e que passa por inúmeras dificuldades. É num desses abrigos, numa sessão de visitas, que ela inicia uma amizade com Alma (Isabelle Huppert), uma mulher burguesa que lhe oferece um quarto na sua casa de luxo. “Quis evitar o cliché da mãe coragem de raízes árabes”, diz Mazuy, tentando manter-se sempre afastada de lugares comuns através de camadas e camadas de profundidade nas suas personagens. “Pretendia personagens mais vivas que isso”, explica-nos, adiantando as razões para a escolha de Isabelle Huppert e Hafsia Herzi para o protagonismo: “A Isabelle Huppert já tinha manifestado o desejo de voltar a trabalhar comigo, por isso não hesitei em mandar-lhe o guião. Quanto à Hafsia, vi um filme com ela, “Tu mérites un amour”, e adorei o seu lado carnal. Quis as duas no filme. Da Hafsia queria o músculo e força. O seu corpo e forma de ser é muito interessante, pois consegue navegar entre o burlesco e o principesco. Isso fascina-me”.

Estética
Admitindo que “foram as circunstâncias que a ajudaram as cores que encontramos na paleta do filme”, Mazuy declara que a escolha da casa, palacete, onde Alma vive, era essencial e serviu de ignição para todas as outras escolhas aplicadas no filme. “Cor e ritmo estão conectados. A história do filme é bastante simples, quase académica. Tinha de surpreender o espectador e isso cabia muito ao visual”, diz-nos, detalhando algumas especificidades: “A casa da Alma era complexa por causa da iluminação, não podia ter paredes brancas. Filmar isso no digital seria ainda mais complicado e não tínhamos dinheiro para filmar em 35mm. Por isso, procurámos um espaço colorido. E quando entrei na prisão e encontrei cores primárias, fiquei feliz. Não filmei lá, e recriamos o espaço sem cores complexas. Algo que inspirasse um ambiente triste. Foi a casa da Alma que guiou toda a estética do filme. Tudo nessa casa remete para o seu marido, como que lembrando permanentemente que ele existe.”
O Futuro
Explicando que não faz os filmes que quer, mas os que pode, Mazuy diz que não tem propriamente um plano para a sua carreira, ainda que tenha vários projetos acumulados. “Não tenho planos. Sou como a Mina, faço o que posso”. Nesse sentido, ficou extremamente curiosa (e surpresa) quando lhe fazemos uma sessão de pitching para uma eventual série de TV inspirada no seu “Bowling Saturn”, que passou nas salas portuguesas em 2024. “Nunca tinha pensado nisso”, diz-nos, admitindo, porém, que “os arquétipos estão lá” (caçador e presa), prometendo que ia falar com o seu produtor. Mas, nesse sentido, ela também admite: “É muito duro escrever um filme. Sou incapaz de escrever uma série”.






