John Landis: «Os estúdios já não estão no negócio de fazer filmes»

(Fotos: Divulgação)

O realizador John Landis, responsável por filmes como A República dos Cucos (1978), O Dueto da Corda (1980), Um Lobisomem Americano em Londres (1982), Os Ricos e os Pobres  (1983), Três Amigos  (1986) e Um Príncipe em Nova Iorque  (1988), tem estado em grande destaque no Festival de Cinema de Mar Del Plata, na Argentina, onde para além de ter direito a uma retrospetiva da sua carreira, tem brindado os espectadores e os jornalistas com algumas considerações sobre o cinema atual, não deixando ninguém ileso: dos estúdios, à pirataria, Landis teceu várias críticas ao estado das coisas, embora reconheça que não tem a resposta para todas as questões que levanta.

Pelo meio, e ainda antes de começar a sua conversa com a imprensa, recebeu dois exemplares de As Aventuras de Dog Mendonça & Pizza Boy, a banda-desenhada portuguesa de Filipe Melo com ilustrações dos argentinos Juan Cavia e Santiago Villa. «Gostei muito. (…) Alegra-me muito que tenham conseguido publicá-la», afirmou um surpreendido Landis, que contribuiu para o projeto através do prefácio.

Já sobre a sua restante conversa com os jornalistas, aqui fica um apanhado das suas principais declarações, bem como algumas frases lançadas para o público em outros eventos no certame:

«Sinto-me influenciado tanto pelos Três Estarolas como por Molière»

Ainda que se veja como parte da geração que vibrou com os Looney Tunes, Landis nega a influência de Chuck Jones, embora reconheça ser fã. «Para mim é genial quando o Coiote está a cair num precipício e olha para o público, porque está consciente dele. É como quando alguém choca com o carro. Um segundo antes já sabe e depois Bang! É um momento de clarividência. Eu amo desenhos animados, mas amo todo o tipo de shows. Adoro westerns, os musicais os filmes noir. Amo tudo. A ópera, desfruto até o bailado. Quando me perguntam as influências, acho que sinto-me influenciado tanto pelos Três Estarolas como por Molière. Se alguém diz “não gosto de westerns ou o ballet” é porque nunca viram um bom western ou um bom ballet. Isso não é uma boa experiência, é ignorância».

Originalidade e execução

«Se alguém pinta uma mulher nua, não é uma ideia original. Se Picasso o fizer, é diferente. Em Hollywood não é um questão de ideias, mas de negócios que o mundo da internet e a televisão regem. Especialmente a internet. É irónico; se por um lado a tecnologia permite fazer filmes de forma mais fácil, por outro é mais difícil levar as pessoas ao cinema. (…)  Como levar as pessoas às salas? É um problema difícil e todos tentam solucioná-lo. Os realizadores sofrem. Hoje há mais liberdade e oportunidades, mas …. no meu caso, metade dos meus filmes foram feitos sem um estúdio. Que estúdio hoje em dia ficava entusiasmado com o Pela Noite Dentro (1985)? Nenhum. Não arriscam. É difícil. Por isso há mais alternativas na televisão por cabo. (…) é difícil. Todas as decisões são feitas com medo».

«Os estúdios já não estão no negócio de fazer filmes»

«Hollywood já não existe. Os estúdios são agora corporações gigantes, cheias de subdivisões internacionais. Time Warner, British Petroleum, Sony, isto já não são empresas, são nações. Eles são estas coisas gigantes internacionais que já não pagam impostos. São como Piratas. É Ridículo. Tem tudo a ver com o desespero, pois eles não sabem como levar as pessoas aos cinemas, por isso trouxeram de volta o 3D e fazem todo este tipo de filmes. (…) É um negócio diferente. O mercado mudou. Antes eu batia a porta dos estúdios e sabia exatamente quem me ia atender. Agora são tantos que não sei. (…) quando fiz A República dos Cucos eu conseguia ir a um estúdio e dizer quem é dono dele: o Lew Wasserman era da Universal, o David Begelman da Columbia, o Arthur Krim da United Artists, o Steve Ross da Warner Brothers. (…) Hoje é muito difícil e arriscado fazer filmes.»

 «É mais comum investir na venda dos filmes que em fazê-los»

Muitos dos meus filmes tinham mais êxito na segunda e terceira semana e triunfavam graças às conversas e o passar da palavra. Agora, se não vais bem nos primeiros dois dias és um fracasso. Por isso é mais comum investir na venda dos filmes que em fazê-los. Os remakes e sequelas são como «marcas» que podes pre-vender. (..) É trágico. O Massacre no Texas, o original do Tobe Hooper, é um grande filme, mas os remakes fizeram mais dinheiro porque o negócio é um pouco diferente. Os estúdios não estão interessados em fazer bons filmes, mas aqueles que dão dinheiro. Titanic? Avatar, os Smurfs? É o mesmo. Avatar não é uma ideia original, mas é espetacular. Gravidade é impressionante de ver. São bons filmes? Não, mas entretém, são espectaculares e tecnologicamente assombrosos. A realização é impressionante.

A Pirataria

«Tudo mudou, a economia mudou. Já não sabem como levar gente às salas. A pirataria é uma epidemia. Um dos problemas é que ninguém controla o YouTube, a Google e a Yahoo!, que vivem da violação do copyright. (…) eles são como vampiros. (…) Como combates isso? (…) Existem gerações por todo o mundo que acham que aquilo que tiraram da internet é gratuito, que não é roubo. Isso nem sequer lhes ocorre (…) a propriedade intelectual tornou-se um vazio. Antes escrevias um livro ou uma peça e era tua, mas agora és sistematicamente violado. É muito complicado e não tenho todas as respostas»

A política nos EUA

John Landis sempre foi um crítico da politica e economia americana. Na verdade, e segundo ele, tudo é uma questão de poder. Todos podem ter o poder nos EUA e é irónico que os partidos mais conservadores critiquem os imigrantes quando toda a nação foi feita com eles. Hoje em dia as pessoas mais poderosas e com mais dinheiro já não são os típicos brancos ricos e deu como exemplo Oprah Winfrey e o Presidente Obama. Algo mudou, mas na verdade, e no final do dia, «todos continuamos a ser yankees»

Conselhos aos jovens

«Filmem. Nunca baixem os braços. Eu escrevi Um Lobisomem Americano em Londres em 1968 e só o consegui filmar em 1980, quando tive êxito comercial com outras coisas. E mais importante: vejam muitos filmes, não só os que têm 20 anos. Vejam cinema mudo. Todas as ideias filmaram-se até 1930. Há gente que não sabe quem é Buster Keaton. E leiam muitos livros. Leiam clássicos: Mark Twain, Hemingway, Dickens.»

Um último desejo

«Vão ao cinema. Nada substitui a experiência cinematográfica. Espero que isso nunca se perca.»

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