O Cairo Industry Days, a plataforma profissional do Festival Internacional de Cinema do Cairo (CIFF), atravessa uma fase de expansão que pretende recolocar o Egito no centro da criação e da produção cinematográfica da região. Depois de relançar o mercado no ano passado, a nova edição chega mais forte, com um programa de coprodução ampliado, uma seleção mais robusta no Cairo Film Connection, novos workshops e o lançamento do programa de mentoria Cairo Pro-Meet. Para Mohamed Sayed Abdel Rehim, diretor do Cairo Industry Days, esta evolução é vital: “Nos festivais mais relevantes do mundo, o mercado tornou-se o coração da sua importância. Quanto mais forte o mercado, maior o peso do festival. O Cairo está a construir isso passo a passo. Cada vez mais entidades reconhecem que o Egito e a região são estratégicos para produção, distribuição e pós-produção.”
A comparação com o crescimento de outros mercados é inevitável. Abdel Rehim recorda como a indústria mudou ao longo de duas décadas: “Vi muitos festivais em que a área de indústria se tornou muito mais poderosa do que era há 20 anos. Lembro-me do primeiro mercado de San Sebastián: eram três mesas e algumas boas ligações, mas nada mais.” O Cairo quer acompanhar esse ritmo. Prova disso é o aumento de participantes: “No ano passado tínhamos apenas oito empresas; este ano temos cerca de vinte e duas.”

Ao mesmo tempo, há um objetivo geopolítico claro: reafirmar o Egito como eixo central da produção árabe. “O Egito continua a ser a indústria mais importante da região, a mais antiga, e as nossas estrelas são as mais importantes… os nossos técnicos são os que são usados noutros países.” Mas reconhece que a concorrência regional se intensificou: “Há competição na região: Arábia Saudita, Marrocos, Jordânia.” Por isso, o Cairo quer assumir-se como ponte global: “Vemo-nos como o centro do mundo, porque o Cairo está entre o sul e o norte. Estou a tentar ligar os dois mundos aqui.”
No Cairo Film Connection, essa ambição é tangível: “Este ano temos 16 projetos de todo o mundo árabe… mais de 35 prémios de 25 patrocinadores.” A importância desta secção motivou a criação de um livro que recupera os seus dez primeiros anos, fruto de um trabalho exaustivo de investigação: “A primeira parte regista, com grandes dificuldades de arquivo, os 10 anos do Cairo Film Connection, com análises e infografias.” A publicação inclui ainda estatísticas dos últimos cinco anos do cinema egípcio, essenciais para corrigir a falta de informação internacional: “O objetivo é fornecer ao mundo dados acessíveis sobre um cinema que muitos ainda conhecem mal.”
A formação é o segundo pilar da expansão. “No ano passado tínhamos cinco workshops; este ano temos onze.” Os temas vão da inteligência artificial à XR (Extended Reality), do restauro digital ao cinema de género. Mais de 200 participantes já passaram pela edição atual, quase sempre com patrocínio externo: “Só um dos onze workshops não tem apoio.”
As plataformas de streaming surgem como tema sensível. “Nos últimos dois anos, as plataformas deixaram de se interessar por Cinema de autor… não se interessam por curtas. Ninguém compra direitos de curtas-metragens.” O Cairo Industry Days está a tentar aproximar distribuidores, festivais e plataformas para impedir que as obras árabes desapareçam na lógica dos algoritmos.
No final, a ambição de Abdel Rehim é clara e de longo alcance: “Trabalhamos com entidades como a ONU, a União Europeia, Fulbright e plataformas regionais. Se houver mais apoio, poderemos construir programas maiores, mais diversos e até planear a longo prazo. Se tivesse mais financiamento, planeava já os próximos 25 anos.”
O Festival do Cairo decorre até 26 de novembro.

