Os anos 2020’s parecem estar a tornar-se os novos 1990’s tal a produção descerebrada de conteúdos onde espetáculo e manipulação sentimental, perante situações catastróficas, são o mote.

Army of Dead”, o novo filme de Zack Snyder, que ainda há pouco nos apresentou a sua “Liga da Justiça”, é um blockbuster sem grande star power, um inerente tom B de cinema fantástico regado a zombies, uma dinâmica de grupo de anti-heróis entre “Armagedão” e “Velocidade Furiosa“, que preparam uma invasão a um espaço interdito (a la Escape From New York“) para executarem um assalto (Ocean’s Eleven). Porém, tudo culmina com Dave Bautista a assumir o papel de um salvador que poderia ser de The Rock em “San Andreas”, não faltando pelo caminho “atos de coragem” que também podem ser definidos como sacrifícios lamechas.

Este é um regresso de Zack Snyder a território familiar, um apocalipse zombie, já que veio dele “O Renascer dos Mortos”,  uma “reimaginação” do filme de 1978 de George A. Romero que colocava um grupo de sobreviventes num centro comercial cercado por hordas de mortos-vivos. É também um regresso  aos trabalhos musculados e cheio de testosterona como “300”, mas com mulheres cheias pinta e prontas para ação como em “Sucker Punch”, embora os novos tempos afastem a sua sexualização. Aqui, todos unem-se para uma missão que não implica salvar o planeta, mas entrar em Las Vegas e operar o assalto ao cofre de um casino. Com a cidade invadida por zombies e um míssil agendado para eclodir, o grupo terá de executar o golpe numa corrida contra o tempo.

Longe vão os tempos em que os mortos-vivos estavam circunscritos a terrenos longe dos blockbusters, sendo os grandes inimigos diversos elementos naturais (meteoritos, mudanças climáticas, terramotos, etc). Especialmente nos últimos 20 anos, os mortos-vivos saíram da esfera de culto e do nicho pós Romero e Sam Raimi e passaram a ser imagens pop massificadas, especialmente depois de “The Walking Dead” ter-se tornado o sucesso que foi e grandes nomes do cinema – como Brad Pitt – terem embarcado em projetos com zombies ou derivados. 

Snyder não tem problemas em entrar novamente neste território para massas que ele mesmo ajudou tenuemente a construir há 20 anos, dando-lhe vigor militarista, uma “sujidão” e brutidão nas personagens humanas, suficientes situações de gore com rasgos splatter, construindo pelo caminho apenas um par de figuras curiosas, na forma de um casal de mortos-vivos, uma das quais podia bem ser a “Noiva Cadáver” dos novos tempos.

Tudo isto resulta num filme de ação em catadupa, mas na verdade sem nunca nada de novo, verdadeiramente espetacular, frenético e que já não tenhamos visto antes, sendo assim, em termos criativos, um objeto quase nulo. E isso sente-se logo no grupo construído por Scott (Bautista), que incluiu a mecânica Maria (Ana de la Reguera), a piloto de helicópteros Marianne, um arrombador de cofres (Matthias Schweighöfer), e a sua filha Kate (Ella Purnell), com quem ele tem alguma distância emocional após um incidente no passado. Outras figuras, com a velha estrutura dos “lone wolfs” e “expendables” da vida, juntam-se à matilha, mas nenhum deles mostra suficiente construção ou profundidade longe dos lugares óbvios, sendo totalmente indiferente para o espectador se sobrevivem ou sucumbem perante as ameaças.

Na verdade, e tal como em “Godzilla Vs Kong”, outro filme descerebrado desta temporada, cuja essência assenta no espétaculo, existe mais humanidade e cria maior empatia “o animal” que os próprios homens e mulheres em cena. E se no filme de Adam Wingard é Kong que nos atrai, aqui é o casal “Real” que o faz, mesmo que o tom maniqueísta e sentimental na relação pai-filha tente sequestrar-nos à força para a sua dor.

Além disso, as sequências de ação não apresentam grandes laivos de interesse ou criatividade (tiros e mais tiros), transformando-se todo o enredo numa sucessão de lutas previsíveis, onde há ainda tempo para alguns twists que na verdade nada surpreendem. Pode ser cruel dizer isto, mas Snyder entrega aqui um sub-produto Michael Bay/Justin Lin com zombies no núcleo, e até a desconstrução destas figuras, com novas capacidades, racionais, sentimentais e de hierarquia social, já derivam do passado, como até vimos de forma subtil em “Terra dos Mortos” (2005) de Romero, onde o zombie começou a reativar a mente e o pensamento.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
exercito-dos-mortos-uma-capsula-para-blockbusters-do-passadoOs anos 2020’s parecem estar a tornar-se os novos 1990’s tal a produção descerebrada de conteúdos onde espetáculo e manipulação sentimental, perante situações catastróficas, são o mote.