A protagonista deste “Oxigénio” não está num caixão como Ryan Reynolds em “Buried”, nem fechada numa cabine telefónica com uma mira apontada como Colin Farrell em “Phone Booth”, mas os princípios do confinamento extremo porque se rege neste novo filme da Netflix são similares.

Mélanie Laurent é uma mulher que acorda sem qualquer memória numa câmara encerrada, guiada por uma voz de inteligência artificial (Mathieu Amalric) que vai dando todo o tipo de indicações e respostas para o que está programado.  Tal como no filme de Rodrigo Cortés, toda história passa-se num único espaço, bem reduzido, e com o oxigénio a acabar, Laurent vai ter de encontrar uma forma de sobreviver, começando por tentar descobrir quem é, onde está e como foi parar ali.

Tem sido curiosa a carreira de Alexandre Aja, sempre com o “bichinho” do cinema fantástico presente. Depois de explodir com “Haute Tension – Alta Tensão”, atravessou para os EUA onde assinou o remake de “Terror nas Montanhas”, continuou com “Espelhos” e “Piranha 3D”. Anos depois, meteu uns “Cornos” em Daniel Radcliffe e mais recentemente colocou Kaya Scodelario em confronto com jacarés gigantes em“Rastejantes”, o tal filme que para Quentin Tarantino foi o melhor de 2018.

De uma ou outra maneira, a luta pela sobrevivência – seja contra animais ferozes, bárbaros assassinos, ou espíritos e demónios – tem sido o foco do realizador gaulês, jogando o tempo frequentemente contra os seus heróis enclausurados, seja numa cabana em nenhures, num parque aquático, numa casa alagada ou numa câmara tecnológica, como acontece aqui.

E se o tempo e a falta dele são o grande inimigo, a grande surpresa e novidade é a existência de uma personagem que tem de descobrir-se a si mesma para encontrar salvação, tendo como única companhia uma voz e ratazanas imaginárias quando a sua mente começa a ceder.

Oxigénio” é todo ele – ou tenta ser –  suspense e tensão. O realizador, na sua primeira metade, nunca consegue fugir ao completo dèjá vu em relação a “Buried”, porém, quando a certo ponto alguns pormenores relevantes sobre a personagem de Melanie são revelados, ganha-se uma reviravolta e com ela uma dinâmica renovada. Essas novas descobertas, baseadas na revelação da identidade e localização, tornam a experiência de “Oxigénio” menos enfadonha, mas ainda assim o filme nunca abandona um tom pálido de mediania onde não faltam sequer algumas resoluções previsíveis. Na verdade, quer na primeira metade, quer na segunda, “Oxigénio” nunca consegue realmente prender-nos de forma claustrofóbica e desesperante como acredita fazê-lo, resultando assim num projeto conceitualmente derivativo (Orphan Black também vem à memória) com pouco para acrescentar.

Neste one-woman-show, Laurent mostra algum carisma, especialmente quando entra em confrontação com a inteligência artificial que gere a câmara onde está trancada, e que inevitavelmente também nos leva a Hall 9000 de “2001”. 

No final e feitas as contas, “Oxigénio” serve apenas como quase todo o entretenimento momentâneo e escapista que cada vez é mais frequente na streamingosfera. Vê-se, mas rapidamente esquece-se.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
oxigenio-confinamento-total“Oxigénio” nunca consegue realmente prender-nos de forma claustrofóbica e desesperante como pensa que o faz