Pétreo nos seus desígnios capazes de juntar a lógica de Heráclito (todo muda) e de Parmênides (nada muda) num fluir pré-socrático, a lei do Tempo pode ser traduzida num ditado ioruba que definiria o rejuvenescedor “Um Animal Amarelo”: “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje”. Consagrado no fim de semana com cinco prémios em Gramado, no Sul do Brasil (melhor roteiro, atriz, direção artística, menção honrosa ao protagonista e prémio da crítica), já elogiado na sua passagem por Roterdão, Lisboa e Biarritz, este inventário das cicatrizes coloniais das Américas e de África estrutura-se num registo universal do cinema, o “road movie”, mas conjuga-o numa desinência autoral na franja do fantástico de um modo que só o realizador Felipe Bragança tem conseguido fazer no Brasil.

Há mais pertinência em se usar uma corruptela semântica… “filme de andança”… para definir o que ele vem fazendo desde “A Fuga da Mulher Gorila” (troféu Aurora de Tiradentes em 2009) do que o anglicismo “road movie”. Deslocamentos territoriais sintetizam, na metafísica erguida por ele, uma colisão com o Mágico, com o Fantástico, mas nunca com o Sagrado. Até filme de super-herói ele fez, como “A Alegria” (correalizado pela realizadora e montadora Marina Meliande, a sua parceira também no supracitado “A Fuga…”), atração da Quinzena de Cannes em 2010, e a série “Claun” (2013), provando a sua afinidade com uma dramaturgia que vai além do “ateísmo sociológico” da ficção brasileira.

Esse olhar para a magia e para o que extrapola o “natural” na sua obra – como os espíritos da travessia Brasil x Paraguai de “Não Devore Meu Coração”, lançado em Sundance e na Berlinale, em 2017 – não é, todavia, proscrito a um encantamento. As suas fábulas são engasgadas com a espinha do peixe do desconforto para com as violências institucionalizadas, sobretudo o abandono dos espaços, das vocações e utopias, como se vê nas instâncias geográficas por onde seu Quixote viscontiano, Fernando (vivido na rés do assombro por Higor Campagnaro), passa atrás do sonho de fazer cinema. A tal ave que o Tranca-Rua do aforismo ioruba matou lá no início deste texto é a ave da História, irmã mais velha do Anjo da História do pintor Paul Klee (1897-1940), imortalizado no quadro “Angelus Novus” (1920), no qual um querubim põe-se a chorar pela Humanidade, com olhos de maré. O olhar de Fernando, na enlevada atuação de Campagnaro (laureada em Gramado), é igual.      

Os seus olhos de Angelus Novus vão chorar a leptospirose do colonialismo, numa viagem que vai do Centro do Rio de Janeiro a Moçambique, passando por Lisboa, numa travessia que cria uma épica entre antigas colónias e sua metrópole d’antanho, mapeada por pegadas de sangue e pelo velho metalismo dos tempos das grandes navegações. Bragança lembra-nos que ainda se faz a Terra girar com pedras preciosas como as gemas que cravejam o corpo de Susana (Catarina Wallenstein, em dionisíaca composição), a filha de um negociante lisboeta de palavras duras como os rubis que adornam a sua pele. Ela evoca “ventos transatlânticos” para fazer troça de Fernando quando este revela para ela a maior fraqueza que um homem pode ter: um passado de fraldas sujas. Um passado que engatinha. Algo que só pode culminar num futuro de bengala, na filosofia de Bragança: “Das doenças todas, a que mais corrói os ossos é a memória”, diz-se. Essa tal filosofia é pautada por um espírito encarnado numa figura com aspecto de bate-bola (personagem do carnaval carioca que é um engrama autoral do cineasta), mas cuja máscara carrega motivos africanos. Esse “encosto”, como é chamado, é uma alma penada dos crimes coloniais europeus que assombram o Brasil. E, na trama-andança criada por Bragança, ela acompanha seu cavaleiro cineasta da triste figura (Fernando) por onde ele vai, da infância até hoje. Crescem com ele a alma penada, que nos leva a uma imediata lembrança de “O Sítio das Coisas Selvagens” (no Brasil, “Onde Vivem os Monstros”), de Spike Jonze, e um osso fémur dotado de poderes oraculares. É! É a magia braganciana a manifestar-se…

Tal osso foi herdado por Fernando do seu avô (Herson Capri), que vivia isolado com um jovem músico por quem apaixonou-se. A morte deste pode ter sido um acidente de escavadora, mas pode também ser um sinal da intolerância do mundo. Não se sabe. Não há muitas afirmações absolutas na narrativa cheia de sinestesia que encontra sal e pimenta na fotografia de Glauco Firpo. Há hipóteses. Certezas… essas Fernando tem só uma: quer fazer um filme, na qual seja capaz de expor o que viveu e o que viveram antes dele e o que seu avô passou, assim como o que passaram seus antepassados. Numa sequência hilariante, este vai ao banco negociar com um gerente (Cláudio Mendes) apoio para um filme, oferecendo a ele o seu roteiro como retórica para o convencer. O que vier de dinheiro será gasto numa viagem para Moçambique. E lá que o filme deslancha, com Fernando a encontrar no sangrento mercado das jóias um caminho. Caminho este no qual encontra uma Arlequina capaz de o expor a ele (e a nós) a resiliência e lucidez dos povos de África: Catarina, papel que deu a Isabél Zuaa um merecidíssimo KIkito de melhor atriz. Dela sai uma composição de corpo e de fala, aditivada pelos diálogos de arame farpado de Bragança, que conduz-nos a um alumbramento. Valquíria de um mundo dilapidado pela ganância de colonizadores, ela é a medida do desmantelo moral de três nações, como evidencia ao falar dos escombros (reciclados em moradia) de um hotel: “Isso aqui já foi um resort para os portugueses torrarem ao sol”.

Promessa de mistério, com a face pintada de morte, Catarina vai conduzir Fernando por uma viagem pelo perigo, indo do escambo de pedras ao reconhecimento dos crimes coloniais que seu fenótipo branco carrega como culpa. Ela é a autópsia num corpo vivo do fardo trágico que ele arrasta, enquanto procura fazer um filme sobre o Ontem que nada mais é do que um espelho do Brasil de hoje. Brasil onde existe uma âncora na dor que deveras se sente ao não entender (e nem teria como) toda a brutalidade que carrega como dividendo histórico. No Rio, ficou uma nuvem, menos nublada do que aquelas que cercam a cabeça de quem “carrega no peito ternura e naufrágio”: a jovem Luiza (Tainá Medina, em meticulosa atuação), uma das mulheres que vão retirar esse homem oco do seu hiato, dando ao público um dos filmes brasileiros de maior lirismo das últimas décadas. Lirismo encarnado na direção de arte de relicário de Dina Salem Levy e no vomitório de verbos de ação e metáforas de resistência de uma personagem que parece “o jumento da História, a carregar o peso do mundo nas costas”. Em “A Alegria”, Bragança (em codireção com Meliande) dizia “Eu te gosto tanto que você parece um sabor de sorvete”. As falas agora em “O Animal Amarelo” são igualmente refrescantes, mas com uma calda mais grossa de reflexão acerca dos nossos erros pretéritos. Erros que estão a repetir-se.

 

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
um-animal-amarelo-filme-belissimo-de-contagios-de-andancasFilme belíssimo, de contágios, de andanças.