Foi numa carta dirigida a Jacques Derrida, que nunca chegou ao destinatário, que Gilbert Simondon escreveu pela primeira vez explicitamente sobre a tecno-estética. Segundo o filósofo francês, o mundo vê-se cada vez mais repleto de obras tecno-estéticas, isto é, objetos “perfeitamente funcionais, inteiramente bem-sucedidos e belos, simultaneamente técnicos e estéticos, estéticos porque técnicos, técnicos porque estéticos”. O termo «estética» refere-se aqui à experiência sensível, à sensação propriamente dita do Bom e do Belo, que, no caso, se manifestam num objeto técnico (tecnológico). Assim “é no uso, na ação, que a obra tecno-estética se torna de certa forma orgásmica, meio tátil e motor de estímulo”, que provoca “um prazer de ação”.

Embora a teoria de Simondon se alastre muito além deste raciocínio, e pese também o facto de que se aplica a todo e qualquer momento da história da Humanidade (o animal técnico por excelência), esta espécie de enamoramento pela tecnologia é hoje, mais do que nunca, um sintoma cultural. Vivemos num mundo industrializado e mecanizado, o que é dizer num mundo maquinizado. E esse é o diagnóstico de Zoé Wittock em Jumbo, uma alegoria dos tempos modernos em que uma jovem mulher, interpretada por Noémie Merlant (tão dedicada quanto no Retrato de uma Rapariga em Chamas), se apaixona por uma máquina – uma diversão “tilt-a-whirl” de um parque temático.

Os contornos deste romance não são como os de Her, por exemplo, o êxito de Spike Jonze cujo romance entre um homem e um sistema operativo mantinha ainda assim algum antropocentrismo, uma vez que a máquina possuía uma voz humana mas não tinha qualquer corpo. Aqui, é o contrário que sucede: Jumbo, a alcunha que Jeanne dá à máquina, é um aparelho monstruoso, robusto, oleoso, que tem apenas lâmpadas coloridas para comunicar. O que atrai Jeanne a este engenho mecânico, frio e rígido, é justamente o facto de não se parecer ao Homem, de ter um corpo, uma constituição material, totalmente inumana. Enquanto Joaquin Phoenix se apaixona pela voz e personalidade de Scarlett Johansson em Her, Noémie Merlant apaixona-se pelo uso ergonómico da máquina Jumbo, pela sensação tecno-estética que lhe é própria.

O filme de Wittock é uma reflexão provocadora que leva esta premissa aos seus extremos mais imprevisíveis, tirando dela ilações bastantes relevantes para os nossos dias. Não é por acaso que a relação amorosa e sexual entre estas duas “personagens” (se é que se pode chamar tal a uma máquina) encontra bloqueios sociais, típicos de todos os fenómenos desviantes. Face à “anormalidade” do seu desejo, Jeanne tem de lidar com o preconceito dos seus pares, com o medo dos seus familiares e com as tentativas de patologizar e criminalizar esta relação. Adversidades bem conhecidas por todos aqueles que não têm um comportamento heteronormativo, e que neste filme são bem representadas de forma não-didática.

Enquanto filme sobre a sexualidade e a tecno-estética, Jumbo tem a proeza de saber trabalhar a luz, a cor e a frequência sonora para proporcionar uma experiência sensorial sensacional. Não podia ser de outra forma para fazer justiça à relação que pretende explorar. É contudo mais infeliz o destino a que chega nos seus momentos finais e como falha ao coibir-se de ver com algum humor esta história. Ainda assim, a primeira longa-metragem de Wittock impressiona, não só por ser uma provocação irreverente, mas por ser uma provocação inteligente.

Pontuação Geral
Guilherme F. Alcobia
Jorge Pereira
jumbo-o-erotismo-das-maquinasJumbo é um filme invulgar, absolutamente relevante para a contemporaneidade e com sequências que merecem ser vistas no grande ecrã da sala escura.