Prometia muito Josh Trank quando entregou ao planeta entretenimento o filme “Crónica“, um ensaio estilizado sobre adolescentes que ganham superpoderes e que se afastam do choradinho moralista transatlântico do “vêm aí grandes responsabilidades”… Depois disso, o cineasta embarcou numa nova aventura – fracassada – do “Quarteto Fantásticoe neste terceiro filme opta por seguir alguém que certamente influenciou muitos dos “Kingpins” que assolam as bandas-desenhada globais: o famoso Al Capone, aqui mencionado e apelidado de Fonzo.

E ao invés de ir atrás e para a frente na história do famoso criminoso que fez fortuna na época em que o álcool era proibido nos EUA, o realizador foca-se no período final da sua vida, quando, com cerca de 48 anos, a demência e uma série de AVC’s o assolam de forma rotineira.

Tom Hardy veste a pele deste Fonzo, um homem que mantém o poder e respeito por tradição familiar, mas totalmente inapto para se pronunciar, pensar ou agir com o mínimo de racionalidade e sapiência, ficando preso sistematicamente entre pesadelos e memórias crispadas do passado que se fundem no seu dia a dia e o fazem vaguear por um estado de morto vivo.

Hardy, habituado a vociferar os mais incríveis grunhidos, bastando lembrar o seu Bane de “Cavaleiro das Trevas Renasce“, executa aquilo que era esperado: um overacting contínuo no trabalho vocal (em inglês, italiano e algaraviadas), nos maneirismos e tiques (o charuto, a cenoura, as alucinações), acabando por ser o filme extremamente exploratório e até eticamente irresponsável na sua apresentação como um homem a caminhar pelo purgatório em direção à morte. Mas este não é um homem qualquer, é o vilão dos vilões que a América teima em falar, a maioria das vezes com algum fascínio, sendo assim este relato dos anos finais de Capone, uma verdadeira descida aos infernos na “arte” da degeneração física e psicológica.

Por mas que custe a entranhar e se estranhe ver Fonzo/Tom Hardy nestas circunstâncias, Trank faz aqui a sua “A Queda“, descendo Capone ao território do humano em profunda decadência, e sem nunca perceber que mais poderoso que qualquer Eliot Ness, a morte está à espreita e ele é um ser, como qualquer um, bem “tocável”.

Uma nota final para o desaproveitamento generalizado das figuras secundárias, como Kyle MacLachlan e Matt Dillon, entregues a figuras menores repletas de lugares comuns que apenas existem para alavancar ainda mais a prestação de Tom Hardy, que embora esforçada soa em demasia a exagero. E exemplo disso é uma cena em particular, quando assiste a O Feiticeiro de Oz e canta If I Were King of the Forest. Provavelmente uma das cenas mais bizarras, doentias e fora da caixa que vão ver este ano.

(crítica originalmente escrita em maio 2020)

Pontuação Geral
Jorge Pereira
capone-tom-hardy-entre-a-demencia-e-os-grunhidosFilme extremamente exploratório e até eticamente irresponsável na sua apresentação como um homem a caminhar pelo purgatório em direção à morte.