Mistério e divertimento não faltam neste whodunit cheio de referências assinado por Rian Johnson, mas mesmo que o cineasta inverta e torça os clichés e lugares comuns de um género marcado pelo selo de Agatha Christie, o seu Knives Out não deixa nunca de ser um projeto de consumo rápido, demasiado dependente das suas estrelas.

Percebe-se toda a alegoria em relação à questão dos imigrantes e fascina a construção cuidada de cada membro de uma família rica, cujo patriarca é um escritor famoso do qual todos dependem, mas no meio de mistério, humor e algum drama entre uma família claramente disfuncional, Knives Out falha falha ao abandonar o exercício de filme-homenagem, munido de esquematismos e até previsibilidade. E muito do que sobrevive na nossa mente, no final deste exercício de estilo, são as prestações absolutamente caricaturais de Daniel Craig, Toni Collette, Jamie Lee Curtis, Don Johnson, Michael Shannon e Chris Evans.

Craig, num papel derivativo de um Poirot sulista, tem de lidar com uma família de verdadeiras sanguessugas, que se alimentam do legado do falecido e que creem no poder sanguíneo e da descendência para prosseguir com as suas vidas privilegiadas. Entra aqui em cena a outsider, a estrangeira, uma cuidadora (Ana de Armas), que devido à proximidade com o patriarca da família é tanto vista como uma ameaça ao bom “americano“, como a “coitadinha” que estes [falsos] “bons samaritanos” podem ajudar para elevar a sua moral.

Johnsson articula o bem o enredo, usa a política e questões sociais nas entrelinhas, e entrega um espetáculo que tenta surpreender em cada esquina. E fá-lo pegando na cultura whodonit (referências a Crime Disse Ela, entre outras) e dá-lhe um toque pop (até a versão japonesa de Ringu é mencionada), mas no meio de reviravoltas e reviravoltas, muitas das quais realmente não o são, falha um toque final que eleve todo o filme para além da diversão momentânea e ligeira que provavelmente se esquecerá a curto prazo.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
knives-out-todos-sao-suspeitos-por-jorge-pereiraCraig, num papel derivativo de um Poirot sulista, tem de lidar com uma família de verdadeiras sanguessugas, que se alimentam do legado do falecido e que creem no poder sanguíneo e da descendência para prosseguir com as suas vidas privilegiadas.