O objetivo do cinema é “enganar” quem o vê. Levar a que o espectador sinta emoções, se mova com o que vê, sem que se aperceba de como isso está acontecer. Para esse efeito, o cinema utiliza muitas vezes metodologias, mais ou menos, óbvias. No entanto, quando o propósito descarado é fazer sentir alguma coisa, normalmente corre mal. Em A rapariga que roubava livros tínhamos tudo para ter uma excelente obra. A história (baseada no livro homónimo de Markus Zusak) era excelente e o elenco era bom, no entanto, a tentativa de contar várias histórias complexas de forma simplificada e abusar nos métodos mais básicos para provocar lágrimas, tornou-o uma desilusão.
A história foca-se em Liesel (Sophie Nélisse), uma jovem que é adotada por um casal de meia idade alemão – Hans (Geofrey Rush) e Rosa (Emily Watson), em vésperas do inicio da segunda grande guerra. Liesel entretanto ganhou o gosto pela leitura. Gosto esse que se avolumou com a chegada de um jovem rapaz culto, Max (Ben Schnetzer), que por ser judeu teve de se refugiar naquela casa. Liesel tinha ainda tempo para um romance pré-adolescente com Rudy (Nico Liersch), o rapaz da porta ao lado. Falta acrescentar que algures a meio da história ela começa a entrar dentro de uma determinada casa para levar livros “emprestados” (daí o nome do livro/filme).
Este foi apenas um breve resumo da história, pois para a contextualizar totalmente, muitos parágrafos teriam de ser escritos. Aliás, um dos grandes problemas do filme é esse: Tentam-se escrever demasiados parágrafos, em pouco tempo (ainda que o filme tenha perto de duas horas e meia). O que isto quer dizer é que, ao procurar desenvolver demasiadas histórias, que envolviam sempre Liesel, acabaram por torná-las quase todas superficiais. Às custas do excessivo foque na personagem principal, tudo o que a rodeava tornou-se secundário e algo artificial. O que é pena, atendendo aos excelentes desempenhos de Geofrey Rush e Emily Watson.
Outro ponto fraco é o facto de o filme ser falado inglês, com um sotaque ridículo alemão, ficando a meio termo e caricatural.
Para além disso, no decorrer do filme éramos sempre bombardeados por uma banda sonora completamente irritante e cliché. Essa banda sonora uniu-se a um final de filme completamente novela mexicana, cujo único objetivo era provocar lágrimas, sem as justificar, criando situações completamente irreais, no meio de uma realidade violenta.
Filmes sobre a segunda guerra mundial já foram feitos aos milhares, este será mais um e claramente, não é dos melhores. Uma espécie de Rapaz de Pijama às Riscas “wanna be”, com umas pinceladas (muito ao de leve) de A Vida é Bela, culminando com um climax Pearl Harboriano. Uma verdadeira desilusão, que será areia para os olhos de quem não quiser ver mais além.
O melhor: Geofrey Rush e Emily Watson e alguns momentos genuínos na díade Liesel-Max.
O pior: Os “Ya ya’s e “auf Wiedersehen’s” no meio do inglês com sotaque e o facto de terem transformado uma história bonita numa pieguice superficial.

Nuno Miguel Pereira

