Quando Peter O’Toole nos deixou foi sentido um completo desprezo por grande parte dos órgãos de comunicação social e não só, as pessoas em geral, quanto à relevância do lendário ator. Tal cenário fez-me questionar o facto e aludindo um pouco ao titulo da obra literária de Cormac McCarthy, se esta sociedade, cada vez mais estética e falsamente rodeada de brilhantismo, não é de todo para velhos. Nota-se na forma como são preservados os clássicos na cultura pop atual e, pior, no tratamento e reconhecimentos das velhas estrelas e personalidades que tanto contribuíram para o desenvolvimento das artes, da música ou do cinema.
Nesse ponto essencial é só contar pelos dedos o números de obras que estreiam nas nossas salas em que o protagonista é alguém mais com os 65 anos e sem ambições de ressuscitar as glórias do seu passado. Assim sendo, e talvez apenas por esse motivo, apenas é agradável ver um filme como Mr. Morgan’s Last Love, o novo palco para o Sir Michael Caine regressar aos holofotes do protagonismo, sem manipulações nem sequer resgates de um passado outrora glorioso. Após o desaparecimento de O’Toole, Caine é a nova lenda viva do cinema, um detentor de clássicos que anseia sobretudo “sobreviver” num mercado cada vez mais competitivo, não por estrelas do seu calibre, mas pela jovialidade, pela beleza que conquista multidões ou simplesmente pelo fascinio naturalmente humano pela juventude eterna, pelo repudio do envelhecimento dos nossos ídolos.
Por isso, Mr. Morgan’s Last Love, adaptação cinematográfica do romance La Douceur Assassine, de Françoise Dorner, é uma anti-tendência com um protagonista peso-pesado que ostenta um teor de “vinho de porto”, ou seja, quanto mais velho melhor. Contudo, a obra de Sandra Nettelbeck (Helen) é um autêntico enxoval de academismos a começar pelos planos sem genialidade e de invocação de convenções, até um conjunto de situações telenovelescas sem uma resolução fácil. Tudo isto caindo numa narrativa repetitiva e sem fulgor no ritmo. Outro factor prejudicial nesta obra, que tenta ser doce ao mesmo tempo incutindo um drama de “fazer chorar até mesmo pedras de calçada”, é na composição dos seus personagens, onde até mesmo Caine é vitima dessa esquizofrenia, um leque mal descritivo e sem objetivos claros se não o próprio impasse narrativo.
Mr. Morgan’s Last Love apresenta-nos temas como morte, amor, legado e até reencarnação (pelo que se entende), uma alternativa formatada de Amour de Michael Haneke, para todos aqueles acusaram a obra em questão de ser demasiado “parada” e limitada em termos cénicos e de personagens. Para além do veterano ator, esta obra conta ainda com as prestações de Jane Alexander, Clémence Poésy, Justin Kirk e Gillian Anderson, todos eles com desempenhos favoráveis.
O Melhor – Michael Caine e o seu protagonismo
O Pior – Um filme demasiado académico onde se nota para além de mais a falta de ritmo narrativo.

Hugo Gomes

