«Kinshasa Kids» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Para além da pobreza endémica, a superstição é um flagelo em certas sociedades africanas. O realizador Marc-Henri Wajnberg foi ao Congo para traçar um panorama do universo das crianças abandonadas pelas famílias sob a acusação de bruxaria e que vão procurar refúgio nas ruas de Kinshasa.

Com um material forte por si, o cineasta belga optou por um outro tipo de registo, ou seja, em vez de construir um retrato de brutalidades diversas ele encheu seu filme de música – presente desde a cena de abertura até ao encerramento. E ela que faz o contraponto à dura realidade dos meninos (e adultos) que vivem na rua, mostrando uma sociedade que, a viver numa das metrópoles mais precárias e sujas do mundo, esbanja alegria, energia e força para continuar.

Mas a qualidade deste trabalho de Wajnberg é, simultaneamente, a sua maior fraqueza. A evidente boa vontade e isenção de preconceitos com que trata as crianças a viver ao relento numa cidade de 10 milhões de habitantes escapa de longe aos etnocentrismos do costume.

Por outro lado, ao evitar o miserabilismo e a violência e abordar até com algum humor o tema da corrupção policial, o realizador acaba por fazer um trabalho demasiado leve. Se é certo que era de todo escusado mostrar as infinitas atrocidades e abusos a que pelos jornais se sabe serem sujeitas as crianças acusadas de bruxaria (pelos motivos mais inacreditáveis, que o filme também não mostra), Kinshasa Kids compromete um tanto do seu realismo. De qualquer forma, termina por ser um filme poético, conseguindo encontrar beleza em seres humanos vivendo sob as mais duras condições.

O Melhor: evitar um retrato miserabilista e etnocêntrico da capital do Congo
O Pior: por vezes ser demasiado condescendente


Roni Nunes 

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