«Midnight’s Children» (Os Filhos da Meia-Noite) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Épico à moda antiga, com um enorme panorama histórico de fundo, uma tumultuosa história familiar pelo meio somados a alguns elementos mágicos/simbólicos. A origem literária é tão óbvia que nem seria necessário saber que se trata de um livro – no caso o homónimo escrito por Salman Rushdie, que também assina o argumento e é o narrador da história. A produção também funcionou nos velhos moldes, com 76 espaços exteriores utilizados.

O filme cruza a trajetória de dois meninos nascidos à meia-noite do dia em que a Índia se tornou independente da Grã-Bretanha. O facto interliga o destino dos dois aos rumos coletivos. Com eles e a sua geração surgem grandes expectativas: tornar a Índia num grande país em termos globais ou, no caso do menino que vai parar à uma família rica (o outro será filho de um músico itinerante), ser responsável por grandes feitos.

Fortemente marcado pelo aspeto simbólico, uma vez que as “crianças da meia-noite” do título constituem uma espécie de família mágica que só consegue se encontrar na mente do protagonista, a obra opera um casamento difícil, no sentido de soar credível, entre magia e realidade.

Acontecimentos dramáticos não faltam para um quadro histórico de uma das regiões mais conturbadas do mundo. Previsivelmente, depois da independência, ocorrida em 1947, vieram as lutas internas pelo poder, o surgimento do Paquistão e, a seguir, uma terceira divisão – resultando no Bangladesh. A obra de Deepa Mehta consegue garantir fluidez à história, conseguindo garantir dinamismo e interesse na maior parte da sua longa duração.

Porém, a fidelidade a este modelo clássico torna o filme demasiado previsível, ressentindo-se ainda de um problema típico do género – o abandono de personagens a meio sem maiores explicações. O pouco carisma do protagonista não ajuda, assim como também não falta um idealismo ingénuo de um livro escrito em 1981, seis anos depois dos acontecimentos que retrata. Assim, aparece marcado por uma esperança de que, depois do desaparecimento de Indira Gandhi, pintada sem meias palavras como traidora e responsável por uma época de trevas no país, a Índia renasceria para um novo período de prosperidade.

O Melhor: a fluidez narrativa
O Pior: uma estrutura que torna o filme demasiado previsível


Roni Nunes

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