O cinema com fundo ecológico nunca traz boas notícias, o que também ocorre por aqui – num filme que trata de um fenómeno pouco divulgado: o desaparecimento das abelhas. Alternando inicialmente entre as deslumbrantes paisagens dos Alpes e as enormes plantações de amendoeiras californianas, o realizador suíço Markus Imhoof sai pelo mundo à procura de uma resposta: porque estão elas a desaparecer?
Um dos acertos da obra é a forma como interliga uma demonstração eficiente e até sentimental do mundo das abelhas com a frieza e o empreendedorismo destruidor do engenho humano, motivado essencialmente pela ganância.
No primeiro caso, Abelhas e Homens beneficia da evolução tecnológica dos meios cinematográficos, cujos recursos cada vez mais sofisticados e bem conhecidos do público de documentários da vida animal, permitem uma observação muito próxima da vida dos insetos. Essa aproximação, em conjunto com as informações fornecidas, passam uma visão emocional da sua forma de organização inteligente e sofisticada – mostrando-as como capazes de gestos calculados, como alterações de um percurso.
Já a sempre complexa relação entre as indústrias humanas e a natureza, com consequências invariavelmente nefastas para a última, surge através de comentários bastante reveladores. Um dos maiores empresários do sector nos Estados Unidos (e em escala mundial), John Miller, diz: “não sei ver um negócio encolher. Somos capitalistas, queremos o controlo global!“. A declaração é menos cínica do que parece: a dada altura, o próprio industrial confessa que o seu avô, também ele ligado ao ramo, ficaria horrorizado se visitasse uma das suas fábricas, com os seus métodos que não respeitam as regras do mundo natural. A explicação: não é comparável a escala de produção com o qual o seu antepassado trabalhava e a atual.
Destaque ainda para uma visita à China, país que traça hoje o seu processo desenfreado de procura pelo progresso – implicando na devastação da natureza que o Ocidente vem realizando há quase 200 anos. No caso das abelhas, os chineses tiveram mesmo de substituí-las por humanos para polinizar as flores, gerando uma paisagem quase apocalíptica.
Como exposição quase didática e assertiva do contexto que aborda, é mais um documentário que denuncia aquilo que, no fundo, ninguém sabe como parar.
O Melhor o modo como interliga o mundo natural com a demonstração do processo industrial
O Pior: é mais um documentário de denúncia a propor problemas insolúveis

Roni Nunes

