Não é fácil a vida de um juiz da capital da Escócia, Glasgow. Não porque os crimes que julga sejam dotados de especial complexidade ou elevado nível de brutalidade, mas precisamente pela razão oposta, circunstância que o obriga a passar o dia a imputar penas de trabalhos comunitários para infrações que beiram o patético. É assim que se forma um grupo onde vai cair Robbie (Paul Brannigan), aquele que tem a infração mais grave de todos eles: num acesso de fúria, agrediu ferozmente um outro jovem, deixando-lhe com sequelas. Quanto aos outros, um deles caiu bêbado na plataforma do comboio depois dos avisos do fiscal; outra não consegue parar de roubar.
O realizador britânico Ken Loach, herdeiro de tradições dos anos 60, época em que começou a sua carreira, gosta de abordar grupos ou personagens oprimidos por forças maiores – particularmente as do Estado. Em A Parte dos Anjos as suas vítimas não são diretamente políticas, mas sim da macroeconomia, embora só o seu protagonista lide com um problema de maior dimensão que a sua própria fraqueza moral – o desemprego.
Este está a braços com a consciência repentina da dimensão do seu ato, de brigas de rua e violência gratuitas, da paternidade recente, do ódio da família dela e da falta de trabalho. Sua vida só parece tomar algum rumo, muito inesperadamente, quando vai à uma sessão de degustação de whisky e tem uma grande ideia.
Esta obra traz uma visão simpática dos jovens desajustados, a recorrer frequentemente a via sentimental para lidar com os dilemas do seu protagonista. Tudo temperado com doses de humor e alguma ação, onde a solução em ritmo de fait divers acentua essa opção por uma via suave. Embora não seja esquemático como os filmes norte-americanos, trazendo ainda a singularidade da pitoresca utilização do grande símbolo internacional da Escócia, Loach é sempre melhor nos dramas, onde alcança grandes níveis de intensidade e qualidade, patente em obras como Brisa de Mudança ou no seu projeto anterior, Route Irish – A Outra Verdade.
O Melhor: é eficiente no drama e tem momentos divertidos
O Pior: não tem a força das obras mais sérias do realizador

Roni Nunes

