«Io e te» (Eu e Tu) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Eu e Tu não tem política, nem intelectualidade e do sexo resta um vago erotismo de fundo incestuoso. Com a santíssima trindade da unidade temática do grande Bernardo Bertolucci amputada desta forma, resta saber pelo que foi substituída. E a verdade é que não foi por muita coisa.

A obra aborda o tema da construção da identidade através de um adolescente misantropo e desajustado, Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori), que planeia um idílio perfeito: uma semana inteira sozinho numa cave, onde vai poder observar colónias de formigas e sonhar com a beleza e a imortalidade do vampiro Lestat. Esse paraíso de solidão e autoanulação social não contava, por outro lado, com o aparecimento de outro ser fantasmagórico: a meia-irmã junkie Olivia (Tea Falco) que resolveu viver a sua “cold turkey” justamente nas suas luxuosas instalações.

Bertolucci retoma o artifício de concentrar a ação quase toda num único cenário, tal como havia feito em obras como O Último Tango em Paris ou Os Sonhadores. Neste espaço fechado o filme todo depende da elasticidade que o realizador consegue dar, por um lado, a interação entre os dois únicos personagens e, por outro, a uma temática que já viu melhores registos na sua filmografia. No primeiro caso, Eu e Tu beneficia-se da participação de Tea Falco, que consegue exalar carisma e sensualidade mesmo a viver uma crise de abstinência – algo que confirma que continua intacto o faro do cineasta que revelou Maria Schneider, Eva Green e Liv Tyler.

Por outro lado, essa interação de personagens em luta por alguma forma de materialização, de fugir do seu anulamento enquanto indivíduo, um tema recorrente de Bertolucci, não encontra comparações possíveis com o tratamento dado ao assunto no seu escandaloso (e poderoso) clássico com Marlon Brando, nem tampouco com obras muito menos consensuais, como Beleza Roubada, que possuía uma poesia que aqui nunca é alcançada, ou Um Chá no Deserto, onde a crise de identidade ganhava dimensões épicas. Eu e Tu é uma obra menor na carreira do realizador, feita com uma ambição mitigada por dificuldades físicas mas que, ainda assim, é bastante eficiente naquilo a que se propõe.

O Melhor: Eficaz dentro dos seus limites
O Pior: Tem ambição e alcance limitados


Roni Nunes

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