«Gold» (Ouro) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Espécie de western à moda germânica, com alemães a tocar banjo e a promover duelos ao pôr-do-sol. Com um pano de fundo histórico pouco conhecido, o da imigração alemã para a América do Norte no final do século XIX, o realizador Thomas Arslan constrói a história de um grupo de sete aventureiros que empreende uma longa e perigosa jornada para o norte do Canadá à procura de ouro.

Uma das curiosidades é que o personagem central não é nenhum Billy the Kid do Mar do Norte, mas uma serena mulher de aspeto singelo e um passado cinzento, Emily Meyer (Nina Hoss). Na verdade, e de forma inversamente proporcional ao seu silêncio, ela torna-se o elemento incómodo e desestabilizador do grupo, atraindo os desejos do desagradável jornalista Gustav Müller (Uwe Bohm) e do antipático tratador de cavalos Carl Böhmer (Marko Mandic), para além da inveja da única outra mulher do grupo, a cozinheira Maria Dietz (Rosa Enskat).

Tipicamente, a ênfase não é na ação e a trajetória construída por Arslan vai no rumo oposto ao da espetacularização, cuja jornada extrai seus sobressaltos de pequenos percalços do quotidiano. O centro da história é mesmo a subtil interação afetiva e sexual entre Meyer e Böhmer e, de resto, as tensões entre todos uns com os outros.

Essa abordagem encontra um paralelo muito óbvio com o cinema do seu conterrâneo Christian Petzold, que fez o mesmo com as histórias noir em Jerichow, por exemplo. E até a protagonista da maior parte dos seus filmes, Nina Hoss, surge por aqui. Ocorre que ela é tanto uma solução, dadas a sua enorme capacidade expressiva e a sua habilidade em operar dentro dos limites de um comedimento de emoções que beira a assepsia, quanto um problema.

Isso porque a intocabilidade e a estetização da sua figura, tão característica dos seus trabalhos com Petzold, enfrenta aqui uma circunstância adversa pelo simples facto de ser incompatível com a progressão da história. Esta era adequada em Yella, funcionava magistralmente em Barbara mas já era inconveniente em Jerichow onde, na história de amantes que perdiam o controlo sobre os acontecimentos devido à paixão, ela e o seu partner Benno Fürmann eram objeto de uma estranha e gélida coreografia.

De resto, para além de um final previsível, Ouro peca por não deixar muito claro, após o enésimo plano de pessoas a andar por uma floresta, se isso se dá para sublinhar uma ideia ou se o problema é mesmo a falta delas.

O Melhor: a exploração subliminar na tensão entre os membros do grupo; Nina Hoss, apesar de tudo
O Pior: final previsível e uma história excessivamente simples


Roni Nunes

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