Depois dos jogos de ambiguidades e imagens refinadas do seu Não Olhes para Trás, estreado em Portugal no ano passado, a realizadora francesa Marina de Van surge com algo que parece uma aposta sua num cinema mais comercial e voltado para um público mais alargado.
Dark Touch trata de uma menina de 11 anos, Neve (Missy Keating), vítima de terríveis abusos e maus-tratos pelos seus próprios pais, que descobre involuntariamente uma saída para a sua terrível situação. Esta consiste na manipulação involuntária de objetos que terminam por ganhar uma força avassaladora e assassina, terminando por se voltar contra os seus agressores.
Tem-se insistido, para desgosto da realizadora, na semelhança da sua história com a de Carrie, do famoso clássico de Brian de Palma. A semelhança é, na verdade, tão óbvia quanto irrelevante. O que pesa mais aqui é a capacidade, ou a falta dela, de De Van abandonar as subtilezas a que está habituada para contar uma simples e palatável história para o grande público. E aí o resultado é 50/50.
Dark Touch beneficia de uma construção dramática verdadeiramente intensa, tornando a dolorosa história de menina num objeto que se segue sempre com interesse e nunca com leveza de espírito. Apesar dos seus “poderes”, Neve está longe de encontrar saídas fáceis e está a milhas das fantasias de super-heróis.
Por outro lado, este drama pesado e pontuado por episódios de redenção paranormal, acaba por tomar um rumo completamente bizarro, resolvendo os conflitos sem a menor sombra de engenho ou delicadeza. No fundo, esse desenlace vingativo, onde as crianças destroem pura e simplesmente as instituições opressoras (escola, família), deixa uma enorme interrogação: onde foi, afinal, que De Van quis chegar com isso?
O Melhor: o intenso drama da protagonista
O Pior: um terço final a roçar o bizarro

Roni Nunes

