Apesar do argumento parecer sofrer de alguns buracos e do final ser mais rebuscado do que devia, a nova proposta do russo Yuri Bykov – que estreou na Semana da Crítica do Festival de Cannes – consegue ser um filme tremendamente tenso, com suficientes volte faces para assegurar uma carreira prolífica nos Festivais mais abertos a thrillers frenéticos.
Canalizando para o espectador o burburinho emocional de séries de TV como 24 ou The Shield, ou o nervoso miudinho de Infernal Affairs, The Major segue a forma como um agente da policia tenta escapar a um atropelamento mortal do qual foi responsável, e como a força policial onde trabalha – com medo das repercussões do crime – procura camuflar toda a situação. Porém, e à medida que as mentiras e às coações aos envolvidos no processo vão crescendo e a violência atinge proporções dramáticas, o policia vai mudando de perspectiva, tentando derradeiramente corrigir o erro que cometeu, mas percebendo que talvez seja tarde demais para isso.
Bykov, que aqui assume – para além da realização – o argumento, edição e a composição musical, para além de um pequeno papel o elenco, segue muitas vezes as suas personagens de câmara na mão, conseguindo captar momentos fulminantes de tensão e psicologicamente aditivados pela adrenalina das ações, que decorrem exclusivamente num único dia.
E mesmo dando a sensação de por vezes estarmos num episódio de uma série de TV, há suficientes argumentos para uma experiência cinematográfica tensa, podendo-se mesmo dizer que – apesar de não ter nada de propriamente novo na sua história – esta é a típica obra internacional com suficiente interesse para se executar um potencial remake em língua inglesa.
Uma última nota para a prestação dos atores, segura e com suficientes variações à medida que a ação decorre, e para uma banda sonora intrusiva que carrega ainda mais a atmosfera de um filme com uma imprevisibilidade palpável.

Jorge Pereira

