Aquilo que é anunciado como um trunfo para este filme na verdade é o menos importante: receber um prémio do parlamento europeu por sua “contribuição à integração na Europa”, não distingue Io Sono Li. Significa, simplesmente, um prémio honorário para uma obra que denuncia algo que acontece debaixo do nariz das instituições europeias completamente falidas que pouca capacidade (ou interesse) tem em combater a dura realidade exibida no filme – e que neste caso específico estão conectadas com corporações chinesas solidamente implantadas no continente.
É sob as regras de uma destas organizações que vive Shun Li (Tao Zhao, vencedora do “Oscar” italiano de melhor atriz por este filme), cuja existência resume-se a um fiapo de individualidade. A trabalhar sem direito a folgas, férias ou qualquer remuneração mas sim para pagar uma soma não revelada sobre despesas que ela supostamente fez, Li vive restrita à dócil espera de que um dia os seus chefes desconhecidos e ameaçadores lhe deem “notícias” – e estas são a autorização para que seu filho venha para a Itália viver com ela. Com a posse do filho pelos patrões, ela não só está refém do mundo externo como é sumariamente impedida de ter um interno.
As únicas exceções que a retiram deste esterilidade de vida privada, a qual nem um direito a telefonema para o filho tem, são uma silenciosa cumplicidade com a sua enigmática e afetuosa companheira de quarto Lian (Wang Yuan) e uma amizade inesperada desenvolvida com um velho pescador (Rade Sherbedgia, magnífico) que frequenta o restaurante chinês para qual ela é designada, numa pequena cidade litorânea do norte italiano.
O que impressiona neste belíssimo primeiro filme de Andrea Segre é a absoluta sabedoria com que ele pressente e depois manipula aquilo que tem nas mãos. Com um material já forte por si só, o realizador conseguiu evitar praticamente tudo em termos de armadilhas e chantagens emocionais – e, ao mesmo tempo, aquele sadismo típico com que uma certa arthouse europeia gosta de retratar os dramas da emigração.
Da mesma forma, teve a capacidade de gerir com maestria os elementos dramáticos e simbólicos de que dispõe – jogando com os artifícios da poesia (Shun Li “reza” para um mestre ancestral que é um poeta, fazendo deslizar velas vermelhas sobre a água) e das alegorias suscitadas pelo mar, pela água, pelo fogo – e a contar ainda com a beleza dos cenários naturais (Choggia é uma espécie de versão minúscula de Veneza) e com a música lindíssima de François Couturier.
Por fim, Io Sono Li demonstra que a grandeza do cinema não se resume a encontrar assombros de génio no seu próprio umbigo, mas que a beleza pode estar perfeitamente conectada com a realidade social, por mais triste, real e revoltante que esta seja.
O Melhor: a gestão dos simbolismos poéticos e a conexão desta com a realidade social
O Pior: nada

Roni Nunes

