«Infancia Clandestina» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

 

Depois de estrear na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes, «Infancia Clandestina» abriu a secção Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián, e apesar de não ser uma experiência totalmente conseguida, deixa antever uma carreira de grande impacto ao seu realizador: Benjamín Ávila.
 
Seguindo uma tendência frequente no cinema argentino, especialmente nos últimos anos, voltamos a pegar nos tempos que se seguiram à morte do Presidente Perón em 1974 e ao assumir do comando da nação por parte de uma junta militar (1976-1983). E também mais uma vez, o grande foco da história são as crianças e as suas infâncias clandestinas, algo que ainda há um ano Paula Markovitch tão bem mostrou em «El Premio», um filme sobre uma mãe e a sua filha que se refugiam e isolam numa zona costeira por serem procuradas pelo regime ditatorial.
 
Aqui o foco da ação é Juan (Teo Gutiérrez Romero), um miúdo que viveu grande parte da sua vida no exílio com os pais em Cuba. Agora chegou a hora de voltar à Argentina e quer os país, quer o rapaz, assumem uma nova identidade (Ernesto, no caso da criança) e vão viver para casa de um tio, Berto (Ernesto Alterio), que usa um negócio de caixas de chocolate como fachada para a luta politica nas sombras.
 
 
A bem dizer, «Infancia Clandestina» não trás nada de refrescante a este género de filme políticos que se apoiam em jovens arrastados pela ideologia dos pais e que são obrigados a crescer demasiado rápido, desperdiçando assim as suas infâncias. Porém, isso não quer dizer que o filme não seja tocante e não tenha nada a dizer. Neste caso, há momentos bastante conseguidos, especialmente quando Juan/Ernesto e o Tio Beto têm alguns diálogos sobre o que é crescer, pois só este adulto parece ter a noção que uma criança deve aproveitar os seus momentos infantis. Dados os desenvolvimentos da narrativa, esses diálogos acabam por ser menos frequentes do que deviam, ficando o rapaz entregue à sua sorte e à descoberta do amor em tempos de “guerra”.
 
Fundindo ficção com elementos autobiográficos (o realizador viu a mãe desaparecer nos tempos da ditadura), há muitas vezes o problema dos cineastas que estão demasiado próximos do material seguirem mais o coração que a cabeça, perdendo-se assim alguma mão e clarividência nos projectos. Aqui, isso sente-se particularmente na banda-sonora, demasiado manipulativa, ainda que o recurso a verdadeiros segmentos de animação em pontos emocionalmente chave retirem a possibilidade de tudo descambar no melodrama barato, funcionando ainda como um exercício de estilo que até nem choca ou retira força aos momentos (mas também não acrescenta).
 
 http://www.youtube.com/watch?v=3GwjtjImcwA
 
Existe um profundo charme e fascínio como Ávila trata a descoberta do amor por parte de Juan/Ernesto, e também como este tem de ser renegado pela sua condição de fugitivo por afinidade parental. A personagem do tio Berto funciona como o contraponto, aquele que faz pensar para que lutamos e que há que também aproveitar os pequenos momentos da vida que nos fazem humanos e não máquinas politicas obsessivas.
 
Em suma, este é um filme de memórias, que nem que seja pelo seu contexto histórico e tom de homenagem merecem a nossa atenção. 
 
O Melhor: A química e amizade entre Juan/Ernesto e o Tio Beto
 
O Pior: Não trás nada de verdadeiramente refrescante a este género de filme políticos que se apoiam em jovens arrastados pela ideologia dos pais
 
Jorge Pereira
(Crítica Originalmente escrita em setembro de 2012)

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