«Beyond the Hills» (Para lá das Colinas) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Os comunistas caíram na Roménia em 1989 e o que ficou no seu lugar não foi o reino de júbilo que a propaganda inimiga gostaria de fazer crer. Pelo menos não, certamente, no caso das comunidades rurais do país, responsáveis por quintuplicar o número de mosteiros no território – ação que caracteriza uma curiosa viragem à Idade Média. Já aqueles desejosos de perseguir a estrela dourada do capitalismo ocidental aproveitaram as fronteiras abertas para emigrar.

E é do exílio que retorna Alina (Cristina Flutur), que volta da Alemanha para os confins “além das colinas” da sua terra natal por uma sólida razão: buscar Voichita (Cosmina Stratan), o “amor da sua vida” desde os tempos em que ambas viviam num orfanato. O problema é que ela encontrou agora “outro amor” com o qual é bastante difícil de competir: o de Deus. Assim, ao invés da luz da razão entrar na mente da sua amada, é Alina que fica agarrada (por razões de saúde física) àquele mundo onde não existe energia elétrica e a comunidade submete-se as leis do “pai” (o padre, vivido por Valeriu Andriuta) e “mãe” (a madre superiora, interpretada por Dana Tapalaga).

Para contar essa história de um grupo fechado a lidar (mal) com o seu elemento desestabilizador, o realizador Cristian Mungiu fez um filme a utilizar o anti conflito muito comum na arthouse, a esvaziar sucessivamente aquilo que poderia gerar uma remota sombra de fait-divers ou, mais prosaicamente, uma explicação objetiva para os fatos verídicos que inspiraram o filme.

Antes pelo contrário, e na intenção de ser imparcial, Mungiu optou por um verdadeiro labirinto de ambiguidades, num jogo de sombras escuro como o inverno romeno. A comunidade opressora não parece assim tão despótica, o padre tem aspeto e ações bem menos sinistras do que um patriarca fanático líder de uma seita inspiraria, Cosmina não é tão tola quanto parece e Alina menos estável do que se desejaria.

Dentro desta opção narrativa, assiste-se ao desenrolar do quotidiano das personagens sob as intempéries gélidas das montanhas, perfeitas para a caracterização visual com que o cineasta representou um estado de espírito coletivo cada vez mais sombrio. A sacudir (literalmente) o quadro, apenas as estranhas crises da invasora, utilizada a espaços esporádicos para pontuar a evolução da história.

Se o resultado é um trabalho seguro e coeso, o enredo é excessivamente dúbio, onde o conjunto de subtilezas não chega para tornar o desenlace do filme menos previsível. Para além disso, a sua longa duração sacrifica a precisão que o cineasta encontrou em “4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias”, o seu trabalho anterior. Aqui a utilização dos mesmos elementos estilísticos (planos fixos, fora de campo, escuridão) serviu para criar um petardo emocionalmente preciso e inesquecível.

O que continua imperdível é o uso genial dos elementos da realidade mais mundana para contrapor ao inferno mental dos personagens. Ao inserir estes em pequenas peças quotidianas – marcadas pelos diálogos banais dos médicos e dos polícias, em “Para lá das Colinas”, dos trabalhadores do hotel, em “4 Meses…” – o realizador põe em andamento dois universos paralelos cujo efeito em acentuar a condição dramática dos protagonistas é espantoso. Neste sentido, o melhor ficou para sequência final, quando Mungiu encerra a sua temporada nas trevas com o mais fino sentido de humor.

O melhor: uma brilhante utilização de certos recursos linguísticos
O pior: o excesso de ambiguidades no enredo


Roni Nunes

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