O Último Episódio (2025) é uma longa-metragem brasileira de coming of age, realizada por Maurilio Martins. Visto durante o Travessias Brazilian Film Festival de 2026, o filme acompanha a vida de três amigos de infância na transição para a adolescência. A obra articula a primeira desilusão amorosa, a descoberta das limitações do mundo adulto e a perda gradual da infância.

Ambientado na periferia da cidade de Contagem, na área metropolitana de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais, Martins escolhe o ano de 1991 como recorte temporal da narrativa. Existe uma estilização temporal que ecoa nas experiências coletivas dos realizadores, que infundem a história com as suas próprias memórias. Essa é, simultaneamente, a maior força e o maior limite do filme.

Desde os créditos iniciais, o tom da fotografia situa o espectador num mundo de infância analógica, sem dispositivos eletrónicos ou telemóveis. Abundam cores saturadas, casacos e roupas coloridas, bem como referências culturais da época. No contexto brasileiro, porém, 1991 foi também marcado por um momento de quase colapso económico, com uma forte diminuição do poder de compra da população. Essa realidade surge na simplicidade dos interiores: casas com muros descascados, decorações modestas e acesso limitado a produtos importados dos Estados Unidos da década anterior. A influência da música pop infanto-juvenil, ditada pela programação televisiva, imprime ritmo à própria narrativa. O sucesso da época, “Doce Mel”, surge logo no primeiro ato como uma ode à infância e à sua simplicidade.

Somos então apresentados ao trio protagonista. Erik, de 13 anos, enfrenta a primeira paixão enquanto tenta compreender a razão da morte precoce do pai; Cassio, também com 13 anos, lida com questões de identidade numa relação tensa com a mãe profundamente religiosa; Cristiane, de 12 anos, cresce com a avó enquanto enfrenta a ausência da mãe emigrante. Cada linha narrativa é costurada pela relação fraterna entre as crianças. O enquadramento insiste em uni-las durante grande parte do filme: o realizador posiciona as personagens de forma simétrica nos dois primeiros atos, sentadas em cadeiras paralelas, a ver televisão no sofá ou a dançar perante a câmara enquanto brincam. A proximidade da amizade torna-se evidente quando a própria condução cinematográfica passa a tratá-las quase como uma única personagem: sempre em foco, sempre juntas, sempre em diálogo.

Quando Erik tenta impressionar a sua paixão platónica mentindo que possui o último episódio da série de animação Dungeons & Dragons, a narrativa desloca-se. O rapaz decide filmar com os amigos um argumento escrito por si próprio, utilizando equipamento de vídeo que pertencia ao pai, antigo produtor de vídeos antes de falecer. O que começa como uma brincadeira febril transforma-se num verdadeiro rito de passagem para a vida adulta. A partir desse momento, Martins começa a dedicar mais tempo de ecrã a cada personagem, acompanhando-as individualmente nas suas próprias jornadas. Ao questionar a mãe sobre as circunstâncias da morte do pai, durante uma caminhada pela estrada, Erik tenta suportar o peso da revelação. Ali, à beira do caminho, longe de casa, percebe-se uma mudança de posição perante a vida: algo da infância termina e a vida adulta aproxima-se. O tema da conversa é pertinente, pois compreendemos que a morte funciona também como metáfora do crescimento.

A nostalgia, porém, acaba por enfraquecer a narrativa. O tom autobiográfico e saudosista impõe-se sempre que surge a contextualização histórica na voz do narrador omnisciente, marcada por um registo melancólico e conciliador perante a passagem do tempo. Em simultâneo, o espectador é confrontado com imagens de dificuldades económicas, empobrecimento da comunidade local e luta por empregos e salários dignos. A mãe de Erik trabalha até ao fim de semana e não consegue acompanhar o aumento da renda da casa. A mãe de Cassio precisa de dar aulas particulares de piano para complementar o rendimento familiar. A mãe de Cristiane envia dinheiro do estrangeiro para sustentar a família. A romantização do passado entra assim em conflito com a precariedade histórica representada no ecrã.

No último ato, quando ocorre a inevitável dissolução do trio devido à distância, confirma-se que nem tudo dura para sempre. A música “Doce Mel” regressa, interpretada pelas próprias personagens numa apresentação escolar, em tom de júbilo. O filme parece sugerir que, mesmo perante as dificuldades, a vida continua a merecer ternura. O desfecho é coerente com o tom sensível da obra. Ainda assim, existe um desejo insistente de suavizar as tensões do filme. Os problemas apresentados acabam por ser esquecidos, as personagens abraçam-se e tudo termina bem, num final claramente pensado para ser conciliador, sem espaço para grandes questionamentos. O argumento não demonstra verdadeiro interesse em explorar os seus conflitos, filtrando o mundo através da saudade e do afeto.

O resultado é um filme sensível e atento aos valores da memória, que perde força ao suavizar a aspereza da realidade que ele próprio apresenta. Uma parte do público poderá identificar-se com o tom nostálgico e pessoal. Outra parte poderá distanciar-se, simplesmente por não sentir saudades de um passado que talvez nunca tenha sido tão doce.

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Pontuação Geral
Guilherme Quireza
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