Sob um finíssimo preto e branco, trabalhado na luz do diretor de fotografia Pablo Baião, O Fantasma da Ópera transforma em ato a fricção que o filósofo italiano Gianni Vattimo (1936–2023), expoente da corrente teórica conhecida como pensamento fraco, designou por desenraizamento e pertença. Na aplicação desta dinâmica crítica ao cinema, encontra-se o desejo de que a imagem se desenraize do solo das aparências imediatas — do que é mera impressão — e passe a pertencer a novos campos semânticos. Um exemplo eloquente é a sequência em que Júlio Bressane (correalizador com Rodrigo Lima) move as mãos num discurso que não se escuta, já que o som ambiente é substituído por uma banda sonora operática. O efeito remete para Fantasia (1940), da Disney.
Esta operação conjuga-se com o pretérito (mais-que-perfeito) do cineasta no jogo com a realização, num esforço de entrançar a semiótica com uma poética de lirismo inquieto, nunca formulaica e sempre avessa à lei dos algoritmos. Ao longo de sessenta anos de cinema, Júlio Eduardo Bressane de Azevedo foi sempre sinónimo de liberdade. Essa sinonímia é aqui colocada ao serviço de uma operação divertida: a fragmentação do próprio conceito de making of.
À beira de soprar as velas dos 80 anos, Bressane abriu a Mostra de Tiradentes de 2026 com um experimento que revisita os bastidores de uma filmagem, à caça dos espectros que vetorizam cada gesto daquilo que virá a ser uma longa-metragem. Em cerca de 25 minutos, a câmara percorre um set onde foi filmado Pitico, projeto ainda inédito da marca bressaniana, com o ator Paulo Betti e a atriz Josie Antello. A proposta deste percurso é revelar aquilo que normalmente permanece invisível quando um filme montado chega ao grande ecrã: o trabalho de pesquisa entre takes. O assunto, aqui, é o Tempo — o tempo suspenso da criação, o cinema em permanente devir.
Longe de ser um documentário convencional, este exercício autoral constrói-se como um registo de set mais especulativo do que descritivo, onde imagens e pensamento se encontram de forma sensível, reflexiva e liberta de amarras narrativas. Desfilando por ícones da música lírica e por marchas de Lamartine Babo, O Fantasma da Ópera trata a História do Brasil como se fosse uma fabulação — ou mesmo uma profecia —, estilhaçando visões do passado para libertar as recordações aí confiadas e apontar algo de novo.
É uma escolha ousada para abrir uma maratona cinéfila. As curtas-metragens raramente cumprem esse papel. Mas Tiradentes pavimenta-se na ousadia. Bressane também.




















