Num pacato recanto do Massachusetts, anos 70, James Mooney (interpretado pelo gigante ator Josh O’Connor), um jovem casado com Terri (Alana Haim) e pai de dois filhos ainda crianças, ex-estudante de arte, carpinteiro desempregado. Um tipo perdido na vida e que ignora a realidade do mundo, um falsário refinado, elegante e charmoso que decide roubar quatro quadros de Arthur Dove (pintor norte-americano modernista/abstrato), num pequeno museu nos arredores de Boston – o fictício Museu de Arte de Framingham, com a ajuda de dois jovens locais inexperientes em roubos, assim como James. Está tudo pensado, excepto onde deixar os filhos enquanto se lança na ladroagem, que ele executa com as cúmplices; agem tranquilamente e sem nenhuma habilidade. Durante o roubo, poucos e hilariantes obstáculos. Safam-se facilmente. James esconde os quadros para depois os vender, não se sabe a quem, talvez a um professor da universidade onde ele estudou.

Quase uma ironia do destino, um ex-estudante de arte tenta especializar-se em roubos de obras de arte. Entretanto, depois do roubo, as coisas correm mal e ele, a princípio, pouco se importa, até cair na realidade e perceber a enrascada criminosa em que está envolvido.

Esta é a trama do recente filme The Mastermind, de Kelly Reichardt, cujo argumento foi escrito com Jonathan Raymond, que colaborou na criação de outras histórias de filmes dela.

Numa entrevista, Reichardt conta que a ideia do filme partiu de um assalto em Worcester feito por Florian Monday (um tipo que tinha uma banda musical antes de se tornar ladrão de obras de arte), uma matéria de jornal que ela leu em 1972. Também revela que, como referência, mostrou aos atores o filme The Plaint of Steve Kreines (1974), de Jeff Kreines, filmado em Massachusetts. E relatou gostar dos filmes de Jean P. Melville.

Voltando à história de James: ele tem de abandonar a família, então leva a mulher e os filhos para passar uma temporada na casa dos seus pais. A jovem esposa parece não se dar conta de que o marido havia roubado os quadros, até a polícia ir à sua casa procurá-lo. Para se livrar de ser preso, James inventa que era filha de um juiz influente, e a polícia acredita.

A estrutura do filme, depois do roubo, torna-se um road movie. Na maior parte da narrativa, vamos ver James a fugir da polícia e a cometer outros pequenos e improváveis delitos para sobreviver na estrada. Quando se faz uma escolha, é difícil livrar-se do que ela pode acarretar. The Mastermind concentra-se nas consequências do roubo, em vez do ato em si; a cineasta desconstrói os clichés dos filmes de género, dos códigos de filmes de roubos e assaltos.

Ela cria um protagonista trapaceiro, incompetente e irresponsável com a sua família. A mulher e os filhos de James devem lidar com o peso dos seus maus atos, numa América dos anos 1970. Década do «dream state» nos EUA, uma mescla de prosperidade para alguns e muita incerteza para outros, marcada por uma crise económica, juntamente com a agitação social e política causada pela Guerra do Vietname.

Para conseguir dinheiro e prosseguir a sua viagem de fuga, James, depois de mais um roubo, acaba por se surpreender com a polícia quando, por acaso, se mistura entre manifestantes que protestavam contra a guerra do Vietname. Um homem que não pensou nas consequências do roubo num museu de arte, e parece saber pouco do mundo dos ladrões profissionais. Acaba por tornar-se vítima da sua própria ingenuidade e por viver alheio aos problemas da realidade que o cerca, como muitas pessoas dos EUA nesta época, que viviam alheias à problemática situação do país em guerra.

The Mastermind é filmado em tons pastel — cores suaves — com planos na sua maioria abertos, alternando entre fixos e de movimento, uma narrativa de ritmo lento. Destaco a excelente interpretação de Josh O’Connor. Interpretação que nos filmes de Reichardt é discreta, com pouco calor afetivo e sem pressa, e não sabemos o que vai acontecer na cena seguinte. Os diálogos são irónicos e o correr das imagens no ecrã instiga-nos e mantém-nos interessados no que pode vir a suceder.

A realizadora não se preocupa em dar pistas sobre as motivações e ações das personagens; deixa o espectador tecer relações entre elas, mesmo depois de sair do cinema. A banda sonora jazzística com movimentos acelerados de Rob Mazurek aumenta a intensidade das ações das personagens e a nossa curiosidade, uma sonoridade com batidas rápidas e animadas, durante quase todo o filme. Gosto também de como foram apresentados os créditos iniciais, na vertical do ecrã — nunca tinha visto nada igual.

O filme concorreu à Palma de Ouro do Festival de Cannes e foi exibido em Lisboa no LEFFEST 2025. Vale a pena procurá-lo numa plataforma de streaming ou aguardá-lo nas salas de cinema em Portugal.

Kelly Reichardt é uma realizadora do cinema independente norte-americano, apreciada por cinéfilos do mundo todo. Sempre trabalhou em oposição às normas da indústria cinematográfica, com visão criativa e qualidade fílmica singulares. Realizou os seus filmes mostrando a América sob a perspectiva de pessoas à margem da sociedade, criando uma imagem do país ao mesmo tempo dura e atraente — uma realidade nada fácil para principiantes. As histórias vividas pelas personagens que cria não oferecem respostas para os seus dilemas pessoais ou sociais, mas ela leva-nos a ser empáticos com elas.

Reichardt inicia a sua jornada artística com a fotografia; ainda muito jovem começou a fotografar com a câmara que o pai utilizava no seu trabalho como investigador forense. Essa experiência proporcionou-lhe lições iniciais sobre composição e enquadramento, antes de se mudar para Boston e dedicar-se ao cinema.

O seu primeiro trabalho no cinema foi no filme Longtime Companion de Norman René, no departamento de arte, e igualmente em Poison de Todd Haynes. Estreou na realização de longas-metragens aos 30 anos, em 1994, com o filme River of Grass. Em 2006, a sua longa-metragem Old Joy conquistou várias distinções, sendo o primeiro filme norte-americano a receber o Tiger Award no Festival de Roterdão. Wendy & Lucy, o seu filme seguinte, foi apresentado no Festival de Cannes (secção Un Certain Regard) em 2008 e nomeado para os Independent Spirit Awards (Melhor Filme). A sua filmografia prosseguiu com O Atalho (2010) e Night Moves (2013), ambos lançados no Festival de Veneza. Depois realiza Certain Women (2016) — uma sinfonia feminina — e First Cow — A Primeira Vaca da América (2019), um subtil western parcialmente inspirado no livro The Half Life de Jonathan Raymond. O seu mais recente longa é The Mastermind. Além de fazer filmes, Kelly Reichardt dá aulas de cinema no Bard College, no Condado de Dutchess, estado de Nova Iorque.

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Pontuação Geral
Lídia ARS Mello
the-mastermind-josh-oconnor-vive-um-ladrao-improvavelA realizadora não se preocupa em dar pistas sobre as motivações e ações das personagens; deixa o espectador tecer relações entre elas, mesmo depois de sair do cinema.