François Ozon saiu premiado de San Sebastián, em 2024, pelo argumento de um filme que celebrava a maternidade a partir do arame farpado das opressões sociais: Quand Vient L’Automne, um êxito de bilheteira como a maioria das suas obras. Nelas, as figuras maternas fogem de paradigmas arquetípicos edipianos, até porque as avós cumprem melhor tal função — vide Jeanne Moreau em Le Temps Que Reste (2005). Essa peculiaridade autoral torna ainda mais singular a sua escolha em adaptar a aula de filosofia disfarçada de romance L’Étranger (O Estrangeiro), publicada em 1942. O primeiro parágrafo do livro já abre o dique dessa problemática: “Hoje a minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘A sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem”, escreveu Albert Camus (1913-1960), num arranque de prosa que marcou época na literatura.
A longa-metragem que o cineasta parisiense extrai destas linhas segue uma linha de contenção sentimental que parece em nada condizente com o estilo rasga-coração que fez de Ozon uma potência comercial — sobretudo em tramas queer. Essa aparente desconexão dá ao seu mais recente exercício de realização — indicado ao Leão de Ouro do Festival de Veneza e ao troféu Cidade de Donostia, da mostra Perlak do SSIFF — uma aura de atração sustentada pelas destrezas demonstradas no comando do set.
L’Étranger é Ozon no seu estado mais radical, embrulhado (graças à maturidade que três décadas de carreira agora lhe asseguram) numa embalagem de refinamento formal. O belga Manu Dacosse, diretor de fotografia nesta aventura existencialista, tem responsabilidade fulcral no vigor do que se vê. Mérito também para Benjamin Voisin, que Ozon filmou em Verão de 85 (2020) e que regressa agora, mais arrojado, ao artesão de espinhos (pois todo Ozon ronda polémicas) que o acolheu nos primeiros passos profissionais. Não se pode, contudo, deixar de creditar ao realizador a eficiência que alcançou. De L’Amant Double (2017) para cá, o seu cinema tornou-se mais vigoroso, com destaque para Grâce à Dieu (2019), que lhe valeu o Grande Prémio do Júri da Berlinale. A incursão por Camus e pela sua Argélia parece ser o auge dessa fase de depuração artística.
Camus paria diamantes de sua escrita, ao refletir sobre a condição humana: “Antes da Modernidade, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida, mas, agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver qualquer significado”. Era chamado maldosamente de “o William Holden da Filosofia”, numa referência ao astro de Stalag 17 (1953), signo de virilidade e beleza masculina. O apelido era uma alfinetada da intelectualidade europeia, incomodada com a ferocidade dos escritos de um pensador cujo rosto apolíneo lembrava o de um galã de Hollywood.
Na estreia literária, no fim dos anos 1930, Camus já condensava cânones da Ontologia, como Santo Agostinho, numa prosa ensaística — sobretudo em L’Envers et l’Endroit (O Avesso e o Direito, 1937). Pouco depois, desbravou a tecnologia narrativa do romance com L’Étranger, que Ozon adapta atento ao limite entre falta de empatia e intolerância. A montagem de Clément Selitzki encontra um ponto de fervura similar ao do texto escrito e preserva-o ao longo de 120 minutos.
Reinventado no Brasil como espetáculo teatral, em atuação meticulosa de Guilherme Leme Garcia, ou em Portugal pela A Companhia Teatro de Braga, O Estrangeiro já tinha sido adaptado por Luchino Visconti em Lo Straniero (1967), com Marcello Mastroianni no papel de Meursault. Ozon alinha-se agora com essa tradição, sem supervalorizar sensos morais. Alguém morreu… um árabe… e isso não se justifica. É crime.
Coroado com o Nobel de Literatura em 1957, Camus defendia uma estética da revolta: a luta, ainda que apenas pelas palavras, como desafio à inércia da existência. Recusou filiações ideológicas, inclusive ao existencialismo, e rejeitou também a fé: “Não quero gastar o pouco tempo que tenho com Deus”.
Tal como Visconti, Ozon disseca os vetores políticos do mal-estar que levam Meursault a matar, confrontando xenofobia e violência colonial. Mas a ressaca do protagonista surge como uma angústia universal. Qualquer um, neste mundo de desamparos, pode ser Meursault. E Voisin cresce intensamente nesta nova troca com Ozon.


















