A sinopse de Manas, filme realizado por Marianna Brennand, dá-nos pistas claras do que a obra aborda. Marcielle, cujo apelido familiar é Tielle, interpretada pela estreante Jamilli Correia (na imagem acima), vive com a família na Ilha de Marajó e é obcecada pela imagem da irmã mais velha, Claudinha, que teria partido, não se sabe quando nem para onde, em busca de uma vida melhor bem longe de casa. A adolescente destemida percebe que a realidade é diferente do idealizado, que o futuro não lhe reserva muitas opções, e decide confrontar a engrenagem violenta que rege a sua família e as mulheres da sua comunidade.

A família de Tielle é composta pela mãe, Danielle (vivida por Fátima Macedo, no centro de uma imagem adiante), pelo pai, Marcílio (interpretado por Rômulo Braga, na imagem acima), pela irmã ausente e por mais três irmãos: um menino de 7 anos, outro de 15 e uma menina de 10, além de outro filho na barriga da jovem mãe. Vivem numa comunidade ribeirinha às margens da Amazónia.

A família divide um quarto e uma cozinha numa casa de palafitas na beira do rio, na Amazónia. Há uma cama para o casal; os filhos dormem em redes penduradas, todos no mesmo quarto pequeno. A pobreza influencia a exposição da intimidade familiar, gerando ainda mais violência. A mulher com a barriga grande está grávida do quinto filho. O pai exclui a esposa do leito conjugal e coloca Tielle, a filha de 13 anos, para dormir com ele, como se fosse algo normal. A mãe, vulnerável tanto quanto Tielle, sofre em silêncio com a violência do marido, contra ela e a filha. As duas são cúmplices na dor e na vergonha de serem cotidianamente violentadas. A mãe não consegue agir, nem mesmo quando o marido colocou Tielle para dormir com ele, fazendo as vezes da sua esposa, diante dos olhos de Danielle e dos outros filhos. Um dia, o filho de 7 anos pergunta à irmã se ela também é a mulher do papai, sem ter consciência do que diz, constrangendo-a, assim como a mãe, que também está por perto. Para não ver a filha continuar a ser abusada pelo pai, num momento de desespero, a mãe envia Tielle para se prostituir com homens desconhecidos numa das balsas do rio Tapajós, na Ilha de Marajó, também como forma da mãe e da filha terem algum dinheiro para suportar a miserável vida que levam.

A certo momento da narrativa, quando a filha, visivelmente a sofrer e envergonhada, implora à mãe para voltar a dormir na rede, a mãe diz-lhe que há coisas que não se podem mudar facilmente. E relata que também ela sofreu abuso por parte do pai. Como se vê, este é um fardo e uma mácula que se repete, sobretudo em estruturas familiares precárias.

O filme evidencia que a violência contra as mulheres acontece dentro e fora de casa, no Norte, Nordeste ou em qualquer região mais pobre do Brasil, quem sabe até mesmo noutros países. Este é um tema que precisa ser exposto e debatido para que a sociedade não ignore esta brutal realidade, e para que haja uma solução para este problema social.

A ficção foca, portanto, num tema urgente de ser discutido também no cinema: a exploração sexual infantil e o abuso sexual familiar não podem mais silenciar as mulheres vítimas. Manas destaca igualmente a resistência feminina na luta contra a violência sexual e, enquanto filme de denúncia social, pode ajudar a romper com o ciclo de violência que afeta as mulheres, mães e crianças.

O filme não tem banda sonora, com o intuito de destacar o que sentem, no sentido de reforçar o que emocionalmente sentem as mulheres (mãe e filha) diante de atos quotidianos violentos, da vida como ela é. Os sons ambientes são usados como recurso dramático e ajudam a criar a tensa atmosfera da trama. Os diálogos e o uso do silêncio comunicam os sentimentos dolorosos das personagens. A direção de elenco é muito funcional, a exemplo da protagonista que não era atriz, foi escolhida entre uma centena de meninas por meio de um teste, ela que morava na periferia de Belém, nunca tinha visitado aldeias ribeirinhas, nem a região onde se passa o filme. Houve uma preparação precisa e equilibrada com Tielle: ela fez aulas de natação, prática de remo, colheu açaí (fruta típica da região), fez trilhas na mata, teve vivência com os outros atores do filme para formar o núcleo familiar. E interpreta com excelente desempenho o seu papel no filme. Na entrevista dada ao C7NEMA, a realizadora teceu muitos elogios a Jamilli Correia, e revelou que filmou o máximo possível em ordem cronológica para ajudá-la a aprofundar-se nas emoções da personagem, à medida que a dramaticidade das cenas ia se adensando. E que nem Tielle nem as outras crianças tiveram acesso ao roteiro do filme, por uma questão ética, já que o tema é violento. Os outros atores são profissionais e igualmente atuam de forma exemplar. A fotografia do filme, apesar de primorosa, não estetiza a violência expressa na narrativa. As locações traduzem bem a vida que a família leva, com exceção de uma: a casa de acolhimento para Tielle se esconder do pai abusador. Logo após a adolescente acabar de dar o depoimento à polícia sobre o abuso sexual do pai sobre o seu corpo, estando vulnerável perante o poder do pai (presente na delegacia), a delegada que está a proteger a vítima do seu agressor leva-a para uma casa da vizinhança — casa de uma mãe que tem uma filha, que sofre abuso sexual por homens que frequentam as balsas que circulam pela Ilha de Marajó. Em geral, uma vítima que está sob proteção policial, ainda mais menor de idade, não é exposta nem fica perto do agressor, porque certamente ele irá atrás dela.

Tive acesso a Manas na pré-estreia em Lisboa, no passado dia 19 de agosto, com a presença da realizadora e da produtora principal, Carolina Benevides (da Produtora Inquietude). No debate sobre o filme, no final da sessão, Mariana Brennand declarou que fez o filme para dar voz às mulheres adultas e às crianças silenciadas pela violência sexual. E espera que todas as manas se sintam encorajadas a quebrar o silêncio ao verem o filme. Segundo a realizadora, o filme não foi rodado na Ilha de Marajó, pois a realidade retratada é muito pior do que se imagina. Ela fez muita pesquisa in loco, esteve várias vezes na Ilha de Marajó, optando por filmar na Ilha do Murutucu, nas imediações da cidade de Belém.

Perguntei-lhe sobre as fontes de pesquisa relativas aos dados reais para criar a história do filme. Revelou que as fontes ouvidas foram delegacias de polícia, moradores das comunidades, assistentes sociais, conselheiros tutelares e psicólogas do poder público da Ilha de Marajó, além de outros profissionais que lidam com crianças que sofreram abuso e exploração sexual. Ela não ouviu nenhuma vítima diretamente, para as proteger e não lhes causar mais violência no processo de possíveis rememorações. Também declarou que desconhece a existência de um projeto do poder público para amenizar este grave problema social, que, a meu ver, afeta sobretudo as mulheres mais pobres no Brasil.

Manas, por onde passa, tem reacendido um debate necessário sobre o tema que aborda. Sugeri à realizadora que, no futuro, exiba o filme em escolas públicas brasileiras, pois há muitos adolescentes e crianças (meninas e meninos) que nem sabem que um pai ou parente abusar sexualmente deles não é permitido — além de ser crime. Sem contar que as mães lidam sozinhas com esta dor e sofrimento diários.

O filme é tão intenso, tão bom, que o espectador sente-se na pele das personagens, como se fosse ele próprio a ser violentado. Durante toda a narrativa, sentimos o que as personagens sentem. E causa muita raiva e revolta contra o mundo masculino abusador, e também tristeza, por sabermos que esta realidade existe para além dos nossos olhos — e pouco fazemos para ajudar a mudá-la. Mariana atingiu o seu objetivo, através de uma abordagem sensorial que consegue conectar o espectador com a experiência emocional de Marcielle e da sua mãe. Ela acredita no cinema como meio de transformação social; eu também.

A estética do filme parece documentário e não ficção. Acho isso positivo, pois mostra o controlo e o cuidado da realizadora (junto com a sua extensa equipa) em partir de factos reais para construir uma ficção que gera no espectador a percepção de estar dentro da vida real, e não simplesmente numa história contada no cinema.

O filme é IMPERDÍVEL, uma excelente estreia de Mariana Brennand na realização de longas-metragens de ficção, fruto de uma minuciosa, atenta e longa pesquisa sobre o complexo tema da exploração sexual de crianças e adolescentes na Ilha de Marajó, no Estado do Pará, região norte do Brasil. Segundo a realizadora, a história do filme surgiu depois de ela ter ouvido, pela boca de Fafá de Belém, cantora dessa região, sobre a situação que as meninas e mulheres viviam por lá.

Mariana nasceu em Brasília, em 1980, e foi criada na cidade de Recife — Nordeste do Brasil. Formou-se em cinema pela Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Antes de Manas, realizou dois documentários premiados.

Manas teve a sua estreia mundial no prestigiado Festival de Cinema de Veneza de 2024, na secção Giornate degli Autori, onde conquistou o prémio principal, o Director’s Award, tornando-se o primeiro filme dirigido por uma pessoa brasileira a receber essa honraria. Ganhou também o Women in Motion Emerging Talent Award em Cannes, tendo sido exibido, até agora, em cerca de 26 festivais de cinema pelo mundo, e em quase todos recebeu prémios.

Manas demorou 10 anos a ser realizado e tem como produtores associados nomes de peso do mercado cinematográfico: a VideoFilmes, Walter Salles, os irmãos Dardenne (Jean-Pierre e Luc), Les Films du Fleuve; além de outros apoios, como o Fundo Ibermedia. E como coprodutores: a Globo Filmes, o Canal Brasil, a Pródigo e a Fado Filmes (PT). É, portanto, uma coprodução Brasil–Portugal (ANCINE/ICA). A distribuidora brasileira é a Paris Filmes e, em Portugal, a Outsider Filmes. Entra em exibição nos cinemas de Portugal no dia 21 de agosto de 2025. SUPER RECOMENDO!

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Pontuação Geral
Lídia ARS Mello
manas-sobre-a-violencia-sexual-contra-as-mulheresO filme evidencia que a violência contra as mulheres acontece dentro e fora de casa, no Norte, Nordeste ou em qualquer região mais pobre do Brasil, quem sabe até mesmo noutros países. Este é um tema que precisa ser exposto e debatido para que a sociedade não ignore esta brutal realidade, e para que haja uma solução para este problema social.