Entre a doçura controlada do filme feel good e a relevância de usar o cinema como instrumento de vigia para o fim da ruralidade, Mélanie Auffret tem deixado a sua marca no cinema francês. Primeiro, em “Roxane”, colocava um  explorador de um aviário (Guillaume de Tonquédec) na Bretanha a tentar salvar o seu negócio do colapso através do teatro, procurando com os seus atos dar visibilidade à sua situação precária. As galinhas são o elenco, Roxane (uma galinha) é a “atriz” fetiche deste “encenador”, e Cyrano de Bergerac a peça em foco. Agora, na mesma Bretanha, na pequena localidade de Kerguen, símbolo da desertificação rural, é a vez de Alice (Julia Piaton, a brilhar), a  presidente da junta de freguesia e professora, ter de de lidar com o facto da escola primária no local já não ter o número suficiente de alunos para continuar a atividade.

Por entre múltiplas personalidades caricatas da aldeia que lhe dão imenso trabalho, enquanto tem de viver (e lidar) com os problemas demográficos, Alice vai encontrar num idoso analfabeto, Emile (Michel Blanc, num dos seus últimos papéis no cinema), um novo aluno capaz de tanto provocar problemas, juntamente com os seus colegas infantis, como encontrar soluções inesperadas.

Recorrendo frequentemente ao absurdo e burlesco, mas nunca caindo numa visão redutora e paternalista das gentes campestres que relata, Mélanie Auffret tem na dupla de atores, Julia Piaton e Michel Blanc, as peças fundamentais de um tabuleiro de xadrez que tanto nos tenta oferecer momentos de comédia como de drama, facilitando (demais) apenas no fim com a necessidade de entregar no desenlace uma felicidade que se sente imposta. Isso tem particularmente impacto no arco narrativo de Alice e Emile, ela sempre disposta a dar novas chances com um escudo de resiliência em riste, ele que de mal humorado e coração duro, passa à doçura em pessoa.

Nos entretantos, o filme diverte ligeiramente, lança a questão da morte das aldeias do interior, mas superficialmente apenas sabe produzir um objeto escapista, esmagando qualquer real reflexão ou relevância concreta para o debate sobre o assunto que o move. E nesse sentido, a promessa de algo mais é apenas fogo de vista, pois a busca de entreter acima de tudo revela a sua verdadeira forma de alienação. A morte do interior continua e temos de nos habituar. Por tudo isso, o filme não apenas nos sabe a pouco, como desilude.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
pequenas-grandes-vitorias-divertido-e-emocionante-mas-derradeiramente-alienanteO filme diverte ligeiramente, lança a questão da morte das aldeias do interior, mas superficialmente apenas sabe produzir um objeto escapista, esmagando qualquer real reflexão ou relevância concreta para o debate sobre o assunto que o move