Coroado com o extinto Prémio Alfred Bauer (de inovação da linguagem) da Berlinale e mais 36 distinções internacionais por um frenesim incontinente, “System Crasher” (2019) apontou uma linha de direção capaz de rejuvenescer as dinâmicas dramatúrgicas do cinema alemão na figura de Nora Fingscheidt, o que a levou para filmar em inglês, produções de mais ambição mercadológica. Não tardou para que a realizadora fosse apanhada pela Netflix, para onde filmou “The Unforgivable” (2021), com Sandra Bullock – sem a mesma incontinência de planos da sua longa-metragem anterior. Não demorou também para que fosse escolhida para projetos com estrelas de perfil de Oscar. Saoirse Ronan é uma delas. Desde que despontou para o estrelato, ainda adolescente, em 2007, com “Atonement”, a atriz parece ter sido “fabricada” para ganhar a estatueta dourada dos EUA, habitualmente associada à chance de ganhar a láurea hollywoodiana. A combinação entre ela e Nora foram suficientes para fazer de “The Outrun”, já lá em janeiro, na sua passagem pelo Festival de Sundance, e depois em fevereiro, no Festival de Berlim, um potencial “oscarizável”.
Uma realizadora expoente e uma atriz que carrega uma imagem de darling da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas fizeram essa produção anglo-germânica – em cartaz no Festival do Rio – se transformar num ímã de holofotes. A diferença é que a promessa de tirar Saoirse de uma persona da jovem de bom coração, leva-a para o inferno do álcool, num enredo sobre o vício. Quem foi fisgado por esse anzol à espera de uma atuação virulenta e de uma narrativa similar ao que Nora fez na produção que a revelou, “Systemsprenger” (citada acima), vai ficar um pouco frustrado. A linha frenética que serviu de cartão de visitas para a cineasta arrefeceu.
Dramas de combate aos malefícios do álcool já garantiram grandes espetáculos fílmicos, de Ray Milland embriagado em “The Lost Weekend” (1945) ao Nicolas Cage suicida de “Leaving Las Vegas” (1995). Muitas dessas tramas arranham o moralismo (ainda que a doença da prostração pela bebida precise ser tratada com alarmismo), mas algumas são provocantes, como “Druk” (2020), de Thomas Vinterberg. “The Outrun” toca no tema com cautela, sem juízos generalistas, com o cuidado de não falar de uma endemia e, sim, dos excessos de uma pessoa vetorizada por vários demónios, a bióloga Rona. O argumento é baseado nas memórias da jornalista Amy Liptrot e do próprio calvário com os copos.
Existem muitas sequências de Rona no fundo do poço, magoando o descontrole do seu corpo em baladas eletrónicas, em quedas, em tentativas de abusos violentos. Essas sequências são dispostas em ordem não linear (como, aliás, vem sendo a marca da programação do Festival do Rio 2024, repleto de experiências não domesticáveis de montagem). Em meio a cada uma, somos apresentados a um novo facto da vida de Rona, como o empenho do seu namorado para lidar com as suas bebedeiras homéricas e a sua incongruente relação com a mãe evangélica e pai bipolar. Saoirse atua na mesma medida cautelosa que Nora dá o problema da dependência: jamais se atira para o fosso. Espera-se a cada minuto a interpretação radical que o marketing à fita – e a sua promoção em Sundance – prometiam, mas ela nunca chega. Há, sim, um desempenho cuidadoso, como lhe é peculiar (desde “Brooklyn”), mas nada vai além disso. É uma performance sem assombros.
O guião confina-se em lugares comuns, sobretudo na insistência em espelhar na protagonista as vicissitudes psicológicas do pai, como se os males dele fossem o gatilho da bebedeira. A representação caricata da figura materna também incorre em chavões. A certa altura, à boleia da profissão da personagem, e o seu interesse em estudar pássaros, “The Outrun” resolve, sem grandes justificações, abraçar uma linha ecológica, a se deleitar nas paisagens das Ilhas Orkney, na Escócia. Ali, apoiada numa estonteante fotografia de Yunus Roy Imer, Nora constrói os seus planos de maior força, sobretudo na sequência em que Rona faz um bailado em sincronia com o movimento das águas. Até lá, entretanto, a força da sua figura perdeu-se em situações excessivamente explicativas e em frases excessivamente melosas, de efeito. A fúria que Nora apresentou nas telas outrora anda em fase de calmaria.
“The Outrun” será novamente exibido no Festival do Rio este domingo, no Kinoplex São Luiz 4.


















