Muitas vezes, num ato de proteção dos filhos, mas também de ocultação de desejos pessoais, os pais “embelezam” a realidade. Isso viu-se, brilhantemente, em filmes como “A Vida é Bela”, onde um Roberto Benigni encerrado num campo de concentração nazi com o filho, transformava tudo num jogo divertido, quando na verdade estávamos perante um dos maiores crimes da humanidade. Nas peças de realismo social, quando não rendidas à pornografia da miséria, o mesmo sucede: uma mãe ou um pai dissimulam o caos das suas vidas, numa manutenção das aparências de que tudo está ou vai ficar bem, ora sacrificando o seu bem estar em função dos descendentes, ora o dos filhos como ato de omissão de impulsos e de um passado de delinquência do qual não conseguem escapar.

Esse sentimento de dar eufemismos a ações e eventos permeia todo este “Les Courageux”, filme estreado no Festival de Toronto, onde a realizadora norte-americana Jasmine Gordon regressa às suas raízes familiares na Suíça para contar a história de uma mulher, Jules (Ophélia Kolb) e os seus três filhos, no cantão de Valais, que dadas as circunstâncias em que vivem vagueiam de poiso em poiso, muitas vezes recorrendo a atos ilegais, disfarçados pela mãe através de estórias mais ou menos convincentes. 

Especialmente nos últimos anos, e após o #MeToo, o cinema tem sido invadido por mulheres cineastas que afastam a imagem de perfeição e os desígnios alegadamente naturais e intrínsecos ao sexo feminino no que diz respeito à maternidade e ao estatuto de cuidadoras por excelência. Filmes bem recentes como “Salve Maria”, “Mon Inseparable e este “Les Courageux” acentuam o desafiar de um cliché, preferindo analises mais humanas, onde as falhas, hesitações e dúvidas das mulheres contemporâneas estão ao lado das suas virtudes. Essas fragilidades no que toca à liberdade individual, perante estruturas sociais rígidas nas suas convenções, está esplanada em todo o filme de Jasmine Gordon, onde a construção de um mundo de aparências, de um jogo de ilusões, funciona como máscara do real no caminho para a aceitação. É como Maquiavel dizia: “Todos veem o que tu aparentas, poucos sentem aquilo que és; e esses poucos não se atrevem a contrariar a opinião dos muitos…

O filme arranca com Jule a deixar os três filhos (interpretados por Jasmine Kalisz Saurer, Paul Besnier e Arthur Devaux) num restaurante à beira da estrada, prometendo voltar rapidamente. Isso não acontece e, quando damos por nós, os três miúdos já andam a correr por paisagens rurais e a atravessar perigosamente autoestradas a caminho daquilo a que chamam casa. É já durante a noite que a imagem dos filhos a dormir traz algum conforto a Jules, que no dia a seguir inventa uma desculpa para as crianças não ficarem com a ideia que ela iria desaparecer das suas vidas. Evitando um dia de escola das crianças e levando-os a verem uma casa que ambiciona ter, o filme vai desfiando e transformando-se num estudo da própria personagem de Jules, sem nunca reduzir as suas ações à mera narrativa das desigualdades sociais. Ao invés, a realizadora deixa espaços em aberto para o que Jules esconde, e o que nos conta, trazendo em doses proporcionais a rebeldia e a forte conexão da mulher aos filhos, com quem tem uma relação de cumplicidade baseada numa teia de mentiras. 

O mistério e incerteza permanente nas motivações e decisões de Jule criam, atmosfericamente, um filme tenso e imprevisível, onde as ações humanas confrontadas com a solarenga paisagem suíça, de enormes vales e montanhas imponentes, reduzem o ser humano à sua insignificância, embora este se comporte de forma magnificente perante os seus.

Filme sobre imperfeições, que nunca se reduz a juízos, “Les Courageux” é uma conseguida primeira incursão de Jasmine Gordon nas longas-metragens, com Ophélia Kolb a carregar uma série de emoções e turbulências – internas e externas – que nos agarram à sua persona do início ao fim.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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