Enquadrado entre os campeões de bilheteiras em França, nas tramas de interseção entre o riso e o pranto, desde que o seu filme mais famoso, “Le Choristes” (2004), vendeu 7.188.247 ingressos, Christophe Barratier tornou-se um daqueles realizadores a quem o circuito exibidor da sua nação acolhe com a certeza de salas cheias. Ele repetiu o feito de faturar milhões com “La Nouvelle Guerre Des Boutons” (2011).

A sua habilidade de dialogar com plateias amplas, a partir de tramas afetivas, calcadas na simplicidade, não foi capaz de disfarçar a despretensão estética e dramatúrgica na sua forma de narrar. Comparado a conterrâneos que também se tornaram marcas rentáveis, como Laurent Tirard (“Le Petit Nicolas”) ou a dupla Éric Toledano e Olivier Nakache (“Intouchables”), o cinema de Barratier extrapola os limites do corriqueiro, sem qualquer dose de esmero plástico, sem qualquer empenho de ir além de fórmulas. Pior do que isso: o humor dos seus filmes nunca ultrapassa freios morais, sempre trilhando uma rota fria de brandura, sem correr riscos. Não é de estranhar, portanto, que, após a pandemia, o seu estilo de narrativas agridoces tenha desandando, incorrendo em arrecadações frustrantes na sua França natal, como é o caso do insosso “Comme Par Magie”.

A participação da Disney + nos créditos de produção desta fita já sugere um excesso de “bom comportamento” na mirada da longa-metragem para conflitos sobre o afeto, mas o cineasta conseguiu travar plenamente qualquer traço potencial de coragem na sua condução. É tanta leveza que enjoa. Com cerca de 205 mil bilhetes vendidos em terras gaulesas, “Comme Par Magie” namorisca com “3 Men and a Baby” (1987) e com a matriz francesa que o inspirou, “Trois Hommes et un Couffin” (1985), de Coline Serreau, para investir na ética do bromance. O amor em questão aqui não é entre “amigos”, mas sim entre um genro (que trabalha como prestidigitador, fazendo truques de magia à la David Copperfield) e um sogro solitário, mas de bom coração. Tramas paralelas vão embaralhar um enredo central que se resume ao empenho das personagens centrais para se adequarem à solidão após uma experiência de luto levianamente mal explorada na construção dramatúrgica.  

Sem almejar qualquer aeróbica da câmara nos enquadramentos, Barratier até extrai esgares aqui e acolá, mas só quando o ator Gérard Jugnot (o beau-père da história) está em cena. A sua dinâmica de storytelling até provoca uma certa sinestesia, por contar com uma banda sonora elegante, composta por Bertrand Burgalat, mas jamais consegue surpreender.

A montagem burocrática de Céline Cloarec e Claire Fieschi desperdiça as (raras) sequências de conflito e amplia o perfil de “telefilme Disney” que a película aparenta ter, prejudicada pela inabilidade do seu protagonista, Kev Adams, em criar uma dimensão anti-heroica nas fronteiras do melodrama que o guião tenta desbravar. O que se esboça de cómico nesta dramedy (“dramédia”) limita-se ao inegável carisma de Kev nas suas caretas e bocas, mas esbarra na falta de tridimensionalidade da personagem central. A fotografia procura dialogar com as narrativas de programas de variedades da TV sempre que vai registar as sequências dos shows de magia de Kev, o que dilui ainda mais as ambições cinemáticas da película.   

No enredo principal, Victor (papel de Kev) está no auge da sua carreira como ilusionista quando fica viúvo. A mulher morre no parto da bebé, Lison. Ocupado com uma série de apresentações de magia com a sua parceira, Nina (Claire Chust), ele não tem tempo de cuidar da criança, confiando-a ao avô dela, Jacques, interpretado com habilidade por Jugnot. A atuação dele ajuda a escavar camadas existenciais num homem já grisalho que encontra na neta um meio para se reinventar. Um dos muitos erros de Barratier é deixar essa relação de lado para dar mais valor à reeducação sentimental de Victor, sem explorar com a devida relevância o vazio que ele sente com a perda da sua companheira e com a sua inabilidade de ser pai. Merece (algum) destaque a engraçada sequência em que Jacques e Victor fazem testes para encontrar uma babysitter para Lison.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
como-por-magia-leveza-demais-enjoaO cinema de Barratier extrapola os limites do corriqueiro, sem qualquer dose de esmero plástico, sem qualquer empenho de ir além de fórmulas. Pior do que isso: o humor dos seus filmes nunca ultrapassa freios morais, sempre trilhando uma rota fria de brandura, sem correr riscos.