De Dostoiévski a Saramago, não esquecendo Edgar Allen Poe ou Vladimir Nabokov, o tema do duplo- doppelganger – sempre fascinou a literatura. Claro está que uma arte vampira como o cinema iria inevitavelmente replicar essa temática, produzindo-se filmes atrás de filmes que se focam, normalmente, numa dúvida metafísica ou existencial, com melhores ou piores resultados.
Pegando no livro de João Tordo, “O Ano Sabático”, lançado em 2012, Artur Serra Araújo, responsável por “Suicídio Encomendado” e “A Moral Conjugal”, criou “Dulcineia”, uma adaptação sem o medo de tomar as suas liberdades na busca de uma identidade cinematográfica própria, mas que verdadeiramente nunca consegue atingir um ponto de ebulição na tensão que tenta criar, ou uma intensidade dramática capaz de gerar reflexão nos temas retratados em torno do seu protagonista, Hugo (António Parra).
Hugo é um contrabaixista de jazz que, após um período em Marrocos, regressa a Portugal e ao Porto, pernoitando na casa da irmã e do genro, que claramente o despreza. Após o encontro com uma mulher, num “arranjinho” amoroso encomendado, ele vai a um concerto onde a estrela, o pianista Luis Stockman, toca um tema que lhe soa muito familiar. Tema esse que está na sua mente há anos e que Hugo acreditava ser exclusivamente seu. A partir daqui nascem dúvidas e a intriga de como este tema que “era seu” foi parar à pauta de Stockman. E quem é este homem que tantas semelhanças, principalmente físicas?
Nessa descoberta do outro, enquanto ainda se luta para se descobrir e guiar a si próprio pela vida, todas as portas para subenredos que se vão abrindo, como o destinado à paixoneta de Hugo por Dulcineia (Alba Baptista), à mulher com quem foi a um concerto, ou à vida infeliz da irmã de Hugo com o marido, vão-se encerrado, numa toada de “isso tem pouca importância”. Nisto, Artur Serra sustenta todo o peso do filme na descoberta da relação de Hugo com Luís, o que acaba por nunca ser suficientemente poderoso para nos arrastar ao lado sombrio da vida, da mente e da criação artística de dois homens.
Carregado nos tons sombrios no uso da palete de cores, com predominância das cenas noturnas e em espaços fechados, “Dulcineia” ainda consegue criar atmosfera para contar a sua história soturna, mas isso também não se revela suficiente para levar o filme para além do espectro da mera eficácia no reino das obras sobre a busca interna de algo que não se sabe bem o que é.
No final, a sensação que “Dulcineia” nos traz é o de uma obra pouco polida e superficial, embora se vista como objeto que se quer profundo e que deixa para o espectador a resposta a algumas questões que levanta.




















