Tal como o narrador de “O Fabuloso Destino de Amélie” nos conduz por Paris para nos informar que a vida de Amélie Poulain vai mudar daqui a 48H, o narrador omnipresente de “La storia del Frank e della Nina” vai nos encaminhando pela Milão da realizadora Paola Randi e contar a história de três adolescentes e um bebé à procura do seu lugar no mundo, enquanto lutam contra a realidade imposta pelos adultos, cujas leis e regras frequentemente esmagam sonhadores.
Profundamente estilizado na fotografia, com variações entre o preto e branco e a cor, destacando em algumas sequências cores garridas que parecem se querer libertar e destacar do cinzentismo à sua volta, “La storia del Frank e della Nina” é tão energético, vibrante e ingénuo como o seu tridente chave de personagens; de um lado temos Gollum (Gabriele Monti), um jovem que não consegue falar e expressa-se através de graffiti (e a narração omnipresente); o seu amigo Frank (Samuele Teneggi), que não só fala demais como uma usa a sua criatividade para escapar ou entrar nos mais diferentes cenários; e Nina (Ludovica Nasti), uma miúda de 16 anos de etnia cigana, que vive com o seu bebé sob o controlo de um homem carregado de toxicidade e violência.
Dinâmico, mas derivativo, com piscadelas claras à Nouvelle Vague e ao cinema de Alice Rohrwacher, sendo mesmo citado “La Chimera” quando o grupo faz “do roubar o devolver vida ao passado” por entre ruínas de sonhos industriais destroçados, “La storia del Frank e della Nina” assume-se como um coming-of-age de montagem ágil e fotografia espampanante que vai introduzindo e fazer desaparecer personagens ao serviço do trio principal, estando as forças da lei sempre omnipresentes como reflexo do medo do mundo adulto, os quais são genericamente tratados como pouco confiáveis ou decepcionantes. Exceção a um velho homem que outrora foi chefe de estação e que servirá de peão para a fuga do trio às obrigações da vida e a uma Milão realista, retratada sempre com um pedaço de angústia na apresentação das suas ambições perdidas: as das personagens, entregues a famílias disfuncionais, e às de uma cidade, em transformação constante, onde o velho deu lugar ao novo, deixando cicatrizes na paisagem. E este é um filme de cicatrizes emocionais que são tentando remendar, não individualmente, mas numa sessão de terapia conjunta, como um “combo”.




















