Importado das BDs para os cinemas pela primeira vez em 2004, por Guillermo Del Toro, numa produção de orçamento (à época) moderado (cerca de 60 milhões de dólares), Hellboy faz parte de uma era de transformação filosófica (e prática) na indústria das artes gráficas nos EUA, datada da primeira metade dos anos 1990. Na ocasião, desenhadores da DC ou da Marvel debandaram das fileiras dessas duas gigantes para se juntarem a novas editoras (Image, Dark Horse), baseadas numa filosofia de liberdade plena para os criadores. Mike Mignola, que vinha do sucesso de Gotham By Gaslight (1989), com Batman, foi um desses autores a encontrar numa nova geografia editorial os meios para criar personagens capazes de desafiar a correção política e os ditames mercadológicos. A sua estética de traços cubistas, somada a uma alma gótica, apostou de caras numa personagem posicionada nas fronteiras simbólicas do Mal.

Hellboy é uma cria do Inferno, evocado ainda era bebé por nazis, que, ao ser salvo por um esquadrão das Forças Aramadas Aliadas, durante a II Guerra, cresce como um (anti-)herói, a defender o mundo de monstros e forças satânicas variadas. Essa dimensão sombria encontrou ressonância precisa na visão autoral do cinema de Del Toro, que explorou o universo de Mignola num par de longas-metragens carregadas de elementos plásticos que caracterizam o flirt do realizador mexicano com a fantasia.

O carisma do ator Ron Perlman, o seu intérprete, traduziu à perfeição o espírito que o vigilante tinha nas suas revistas ilustradas. Apesar disso, a segunda produção baseada nas suas historietas, The Golden Army (2008), teve um desempenho comercial aquém do esperado, o que afastou a chance de uma franquia longeva. Onze anos depois, o demónio de bom coração retornou, então sob a direção de Neil Marshall, com David Harbour no papel principal, numa tentativa de retomada que naufragou no desdém do público por um formato de fantasia que não se resolvia entre o dark e o pop. Essa resolução só vem a ser bem executada agora, em 2024, graças à nova e plasticamente instigante aproximação do audiovisual às tramas de uma banda desenhada de culto, imputada a Brian Taylor. Trata-se de um thriller de horror tenso.  

Para os fãs do legado ilustrado de Mignola, Hellboy: The Crooked Man (Hellboy e o Homem Torto) deleita olhares com o seu diálogo eficaz com os comics homónimos, lançados pela Dark Horse em 2008, trazendo Richard Corben como o seu desenhador. O visual daquela BD serviu de base para a direção de arte da película de Taylor, um cineasta ligado ao cinema B. Na segunda metade da década de 2000, ele despontou nas franjas de Hollywood com o feérico Crank (2006), extraindo de Jason Statham um grau de selvageria nunca visto (antes ou depois) pelo ferrabrás inglês.

A sua dinâmica de linguagem feroz, avessa ao politicamente correto, levou a Marvel a apostar nele na direção de Ghost Rider: Spirit of Vengeance (2011), numa tentativa de reinventar o Ghost Rider e a persona de Nicolas Cage. A faturação nas bilheteiras ficou bem aquém do esperado, mas o resultado artístico até hoje impressiona em comparação com as estruturas algorítmicas das películas de vigilantes superpoderosos.


Depois de uma passagem pelas séries, com Happy! (2017-2019), Taylor regressa ao cinema com o luxuoso aporte de Mignola na escrita do guião da nova encarnação cinematográfica do seu diabo justiceiro. A escolha do ator Jack Kesy como protagonista também foi um acerto, ao explorar (na medida certa) a amargura que tonifica Hellboy.

Numa estilizada louvação ao chiaroscuro, na fotografia de Ivan Vatsov, Taylor transforma o que deveria ser uma aventura de heroica num conto de horror sobre bruxaria. Durante a década de 1950, Hellboy (Kesy) une-se à agente Bobbie Jo Song (Adeline Rudolph) numa missão nas Montanhas Apalaches, em luta contra aracnídeos gigantes. Há um perigo maior no local, que remonta à ação histórica de bruxas e à presença de uma criatura conhecida como O Homem Torto, um coletor de almas. Conforme investiga os desígnios desse ser sinistro, com a ajuda de um bruxo reformado, Tom Ferrell (Jefferson White, em inspirada atuação), Hellboy é obrigado a confrontar os segredos ocultos do seu passado e procurar um novo direcionamento para a sua relação com a Justiça.

Sem jamais deixar a adrenalina de lado, em sequências de ação eletrizantes, Taylor investe na dimensão tenebrosa do limbo que o Homem Torto produz por onde passa. É difícil não pensar nos clássicos de horror da produtora Hammer dos anos 1950 e 60 (sobretudo os clássicos de Terence Fisher) diante das brumas que encobrem os Apalaches. É um exercício de cinema de género que aposta mais no assombrar do que nas filosofias do vigilantismo, bem como se vê (e se lê) em Mignola.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
hellboy-the-crooked-man-quando-o-horror-salvaNuma estilizada louvação ao chiaroscuro, na fotografia de Ivan Vatsov, Taylor transforma o que deveria ser uma aventura de heroica num conto de horror sobre bruxaria