Oito anos depois de “A Minha Vida de Courgette”, o suíço Claude Barras regressou com uma nova obra de animação, que antes de chegar a Locarno, onde a assistimos, passou pelo Festival de Cannes.
Tal como em “A Minha Vida de Courgette”, Barras não mostra condescendência para com o eventual público mais jovem, mostrando que na vida, seja onde quer que seja, a violência, a morte e o trauma fazem parte do processo. E tudo isso está exposto numa fábula com tudo de ecológico, mas também anticolonial, lançando farpas ao capitalismo empresarial, mas não esquecendo quem o alimenta, ou seja, nós, através do hiperconsumo. O comércio do Óleo de Palma – que encontramos em quase tudo o que consumimos – está no centro do debate que o cineasta lança, o qual, recorrendo mais uma vez ao stop-motion, apresenta neste seu “Sauvages” uma história de família, de identidade, mas também um sério alerta aos riscos ecológicos da desenfreada vida contemporânea. Ao mostrar os abusos sofridos pelo meio ambiente, em particular os impactos do desmatamento para a fauna, flora e humanos que ainda habitam em florestas tropicais, Barras nunca esquece a sua veia ativismo, embora nunca caia exageradamente no didatismo de um guião expositivo.
Escrito por Barras e Catherine Paillé, em colaboração com Morgan Navarro e Nancy Huston, “Sauvages” leva-nos ao Bornéu. Depois de ver os os trabalhadores de uma plantação de óleo de palma matar uma mãe orangotango a sangue frio, Kéria (voz de Babette De Coster) e o pai (Benoît Poelvoorde) acolhem Oshi, o filho primata desta, assumindo Kéria o papel maternal. Com a chegada do seu primo mais novo, Selaï (Martin Verset), com quem ela tem um relacionamento turbulento, apelidando-o mesmo de selvagem, os dois vão acabar por embarcar numa aventura que os levará à tribo onde o avô de Kéria vive. É aí que, ao ver a pressão que a tribo sofre por parte dos madeireiros, a pequena vai assumir um papel ativo de luta pela floresta, descobrindo no processo que não é assim tão diferente da sua falecida mãe.
Além da sensibilidade, ternura e precisão na criação de personagens e histórias, esta obra de animação de Barras destaca-se pela vivacidade de cores e sons, que nos conseguem levar para a floresta do Bornéu que tem de ser ser salva. Mas, acima de tudo, Barras tem uma mensagem a transmitir. E embora não seja um filme panfletário, nunca deixa de lado a sua forma de manifesto ecológico e anticolonial.





















